A LUZ – Parte 2 de 3

Jornalista


Chamam-no de Baiano por que o nome dele era de uma complexidade que o próprio nem ousava explicar. Também nem saberia que letras soletrar do próprio nome. Tentou duas ou três vezes e em todas criou outro nome ainda mais complicado. Serguei Rurik era filho de uma inocente filha de estivadores com um Russo com quem teve uma calorosa relação de três meses. Quando descobriu que estava grávida, Serguei Rurik, pai de Baiano, tomou um navio dizendo que partiria para a Rússia para se despedir da família e que voltaria em poucos meses para sua amada. Margarida, moça apaixonada, esperou pela volta do amor e quando seu filho nasceu, batizou com o mesmo nome do pai. Baiano foi como a família sempre o chamou. Na escola nem os professores conseguiam explicar-lhe como escrever seu nome. Sua mãe viveu ainda muitos anos mas faleceu de tuberculose quando ele ainda não tinha completado 20 anos. , quando já era adolescente, cansou daquela vida. Decidiu abandonar o resto da família, avós e tios e partir para o sudeste em busca de uma nova vida. Encontrou São Paulo, onde ganhou o apelido de Baiano. Quando migrou para o Paraná, continuou com o apelido e assim ficou.

Naquela tarde tomou mais um trago de cachaça. Olhou sério para os colegas, todos debruçados sobre o balcão. Olhos atentos, observando a cada frase se a resposta para aquele enigma saltaria da boca de Manoel. Todos sabiam que era um fato inexplicável e que apenas três pessoas haviam visto aquele fenômeno. O próprio Manoel, o Orípes e a esposa dele, uma senhorinha que pouco saia de casa. Foi o velho Fazendeiro rico, que vivia como pobre quem deu emprego para o Baiano. Esse acha que criou um laço afetivo com o patrão. É bom funcionário, não reclama, trabalha direito, faz bem feito e não incomoda. Mas é apenas a sensação de que tem um laço. Quem conhece Orípes sabe que ele não tem muitos sentimentos. Gosta mesmo é de passar o dia fumando seu paiero, olhando suas terras. Nem mesmo os filhos lhe tem tanto carinho, são mais independentes e só aguardam a morte do pai para conquistar mais uma fatia de riqueza. Enquanto isso Baiano sonha. Sente falta do pai que não conheceu e que ainda o desgraçou com o nome difícil de dizer e impossível de escrever. Isso ele guarda no fundo da garrafa, no amargo da pinga. Afoga seus sentimentos com a bebedeira e não compartilha isso com ninguém, as vezes nem mesmo com ele.

Baiano nunca fez uma oração na vida. Costumava jogar pedras e as vezes até bosta de cavalo em terreiros de candomblé. Dizia que espírito, entidades e qualquer coisa a mais era assombração. Desde cedo se acostumou como o corajoso. Qualquer desafio ele aceitava e cumpria. Acabou ganhando fama. Mas a fama ele trouxe há pouco tempo para Terra Roxa. Alí o que todos sabem é o que ele conta e até hoje nunca foi desafiado para um ato de coragem.

– Me dá mais uma, pediu Baiano.

Manoel encheu o copo.

No outro dia, continuou Manoel, A Eliane, filha do falecido, foi visitar a mãe e a encontrou morta, deitada na cama, vestida com o melhor vestido que tinha. Ela disse que era como se estivesse preparada para o próprio velório.

– Você acha que foi o falecido que apareceu para ela?, perguntou Cláudio.

– Acho que foi! Só pode ser, respondeu Manoel.

– E você não voltou lá?, indagou Francisco.

– Tá louco!? Só fui no velório por que era na casa do filho, respondeu Manoel.

– Vocês são tudo um bando de cagão mesmo, brincou Baiano.

– Ah! Falou o Destemido Baiano. Se você é tão machão assim, por que não vai lá?, perguntou Osmar.

Baiano não respondeu. Preferiu tomar o resto da pinga.

– Mas o pior não é isso. Ontem, o Orípe me contou ele também viu a luz andando pelo sítio do finado.

– Mentira? Continua lá?, perguntou assustado o Claudio.

– Pergunta lá pra ele, respondeu Manoel.

Os quatro pararam a conversa. Cláudio olhou para fora e chamou.

– Seu Orípe, dá um chego aqui.

passou um tempo em silêncio. Viram uma cortina de fumaça de paiero subir pela beirada da porta e depois ser carregada para dento do bar com uma nova brisa que vinha de fora.

– Vocês são mais novos, venham cá vocês. – respondeu calmo.

Cláudio e Francisco se levantaram como se cumprissem o chamado de um pai. Manoel guardou a garrafa de pinga sob o balcão. Baiano, que já tomava o quarto trago de cachaça do dia, acabou por engolir meio copo num gole só. Soltou um respiro forte mostrando que a cachaça havia queimado a garganta. Do lado de fora, as crianças ainda brincavam de corrida de tampinhas. Agora o desafio era pular uma rampa e cair do outro lado de um poço, numa curva, sem sair da pista.

Cláudio parecia ansioso, não esperou todos chegarem e foi perguntando:

– É verdade que o senhor viu uma luz na casa do finado Cristóvão.

– Vi., respondeu seco Orípes. É a alma penada dele que veio buscar a esposa.

– E esse troço de alma penada existe por um acaso?, perguntou baiano, parecendo pestanejar na sua incredulidade.

– E você não ouve o padre falar na missa?, retrucou Osmar antes.

– Eu não vou na missa., disse Baiano.

– Mas devia ir., respondeu o Orípes. Essas coisas só perseguem quem não tem fé.

– Então não devia ter aparecido para a esposa do Falecido! Ele ia na missa todo domingo., questionou Cláudiomiro.

– Vai ver que ele era fraca de fé, respondeu convicto Eurípedes.

– Deixa de conversa, interrompeu Manoel, Conta da luz que você viu.

– É, concordou Márcio, conta da Luz.

– Ela aparece toda noite. Logo depois do último raio de sol quando o sol fica alaranjado e começa a escurecer. É nessa hora que aparece a Luz.

– E de onde ela vem? – indaga Claudio.

Orípes mal terminou de fumar um cigarro tirou um maço de palha do bolso. Pegou um pouco de fumo que tinha sobre a mesa e fez um palheiro. Antes de responder acendeu o cigarro. Ninguém arredou os olhos dele.

– Ela fica vagando entre os pés de café. Vai até a casa e depois volta pro cafezal. – disse depois de soltar uma tragada de fumaça.

– Deve ser brincadeira de alguém que não tem o que fazer, questionou Baiano recuperando a incredulidade.

– Brincadeira não é. – Continuou Eurípedes – A noite inteira a gente acorda com o barulho dos cachorros uivando no terrero. Coisa boa essa luz não é. Da casa dá pra ver a casa do finado. A Luz vem anda pelo cafezal como se estivesse correndo. Depois para. É um ponto de luz que as vezes está no chão, as vezes está no alto.

De trás da porta sai Manoela.

– Pai.

Claudio e Claudiomiro se assustam. Osmar só olha disfarça que percebeu a chegada da menina. O Baiano rí e tira um sarro dos colegas.

– Falei que era tudo um bando de cagão.

– Se é tão corajoso assim, então por que não vai lá e vê o que é com seus próprios olhos.

– Pai. – repete Manoela, segurando um pano de prato nas mão.

– Que é filha, – responde Manoel irritado.

– Mamãe tá chamando o senhor.

– Tá bom, diz que já vou. Que horas amanhã. – pergunta Manoel para o Eurípedes.

Antes do entardecer. Vão jantar lá em casa. Leva a pinga que o resto a Dolfina faz lá.

Manoel entrou. Paulo e Claudiomiro voltam para a mesa de sinuca para continuar a partida que foi interrompida. No terrero as crianças começam uma discussão. Eurípedes com voz severa chama a atenção delas.

– Ah! Se não parar de brigar levo lá pro cafezal onde tem o fantasma da Luz pra ele devorar vocês dois.

As crianças param e olham assustadas aquele velho, de pele queimada, morena, surrada pelo sol. As rugas da testa formam quatro linhas que cruzam toda a face fazendo um vê, bem no centro, deixando ainda mais evidente as sobrancelhas curtas, arqueadas para o nariz, com as mesclas dos fios brancos com base negra, cheias, despontadas. Os olhos bem arregalados olham fixamente para os olhos das duas crianças, são de um velho verde desbotado, contornado por um branco avermelhado, sem cílios, ou dos poucos que tem em que quase não se nota, nem nas pálpebras, nem nas bolsas gordas, que sobressaem na base pouco acima das bochechas. Há uma severidade no rosto, percebida pela forma com que fuma o cigarro de palha, apoiado entre os lábios cerrados, escondidos entre o bigode amarelado e a barba. Apenas os lábios, o resto é escondido pela barba branca, grossa, que parecem pequenos arames, também despontados, que caem até parte do pescoço sem cuidados, escondido em parte pela gola da camisa, amarelada pelo suor. É o nariz que impõe o respeito. Embicado para baixo faz três bolsões, das narinas e da ponta. Acima, na base da testa, entre os olhos, um traço reto divide as rugas e deixa a mostra os pequenos furos da pele já bem envelhecida. Uma das pernas está cruzada sobre a outra, joelho sobre joelho. Um dos cotovelos está apoiado sobre o joelho e o tronco apoiado no ar, com a mão, meio cerrada, pouco afastada do rosto, do jeito que pegaria o cigarro para a fumada. Hipnotizados, os dois meninos continuam paralisados. Uma inspiração suave queima a ponta do cigarro e logo depois a fumaça começa a sair pelo nariz. Os olhos ficam mais evidentes como se contornados pela fumaça. Pouco depois a boca se abre e uma nuvem ainda maior toma conta de todo o rosto. O sopro empurra parte da fumaça para longe. Márcio inspira fundo aquele cheiro amargo. Cristiano acorda do transe. Pega a tampinha e sai correndo para dentro do bar. O velho rí um sorriso quase imperceptível e continua a fumar seu cigarro de palha enquanto olha para a estrada que corta a frente do bar. O Sol ainda está alto mas uma brisa anuncia que a tarde já está chegando ao fim e ao anoitecer, vem a Luz, que volta a rondar a casa do finado.

Amanhã é o dia. Baiano toma mais um trago da cachaça. Agora tem dúvidas sobre sua coragem mas tem seu orgulho, que o impede de desistir. A noite será longa. Mais uma cachaça fecha seu dia. Vai para casa, deitar e tentar dormir. Talvez reze hoje pedindo sorte amanhã, talvez se embebede com um litro de aguardente que guarda sob a cama. Domingo é dia de reza, não vai roçar. Pela primeira vez sente um murmúrio no estômago. A fome se anuncia mas não deve incomodar.

CONTINUA…