A LUZ – Parte 1 de 3

Jornalista


Estamos em Terra Roxa, Oeste do estado do Paraná. O nome Terra Roxa vem do Latim Terra Russeus ou Terra Violeta, no português. O fato é que a terra deste lugar não é nem roxa, nem violeta. É vermelha. A bagunça surgiu com os descendentes de italianos que vieram para a região. Eles chamavam esse lugar de Terra Rossa, que em Italiano é Terra Vermelha. No passar do tempo, a linguagem italiana foi confundida e o município ganhou o nome de Terra Roxa. O ano de 1970 chegou há poucos dias. A região já foi um grande polo produtor de Erva Mate. Depois acabou descobrindo o Café, que trouxe riqueza e atraiu imigrantes de todos os lugares do Brasil e do mundo. Uma das famílias mais tradicionais era a de Orípes Modesto Ramos. As terras deles eram extensas e sua família já ocupava a região desde meados do século XIX. Agora, velho, sem forças para trabalhar, apenas administrava o imenso cafezal. Mesmo rico, não deixou de viver em uma casa simples, de madeira, no alto de uma colina. Dalí, tinha vista para boa parte da região, inclusive para o sítio vizinho, onde morava um grande amigo seu, o Cristóvão, descendente de Portugueses. A cidade começou a ser formada há pouco mais de 15 anos. A igreja ainda já está quase pronta. Um imenso prédio redondo agora só espera pela colocação de uma santa no alto da torre. A prefeitura também está sendo construída. A cidade mais parece um imenso canteiro de obras. O comércio já é bastante forte mas algumas poucas famílias migraram da roça para os jardins. O restante, trabalhadores e donos de pequenos sítios continuam a viver isolados, separadas por alqueires de distância. As ruas são extensos trechos de terra batida, desenhadas às margens das propriedades, formando um imenso labirinto de curvas e retas. Os carreadores – como chamam os antigos – são recheados de pequenas pinguelas sobre os córregos por onde atravessam os carros de boi, jipes e um caminhão Ford F-600, ano 1955, transportando pessoas, equipamentos, comida e sementes. Em um desses carreadores há um bar. Bar do Nabão. Metade é bar, construído com a madeira nobre das Araucárias. Na frente há poucos dias foi instalada uma placa do Guaraná Antártica para substituir uma velha, vermelha, enferrujada pelo tempo. As portas da frente são duas grandes tábuas, largas. São tão grandes que um homem alto esticando os braços para cima ainda assim não alcança a vista. Três ripas da mesma árvore prendem as tábuas e dão a ela a firmeza de uma porta sólida. Por dentro, apenas uma outra ripa é encaixada em quatro ganchos, impedindo a porta de abrir. Não há trincos nem fechaduras. Anos atrás, antes mesmo de construir o bar, o dono da terra Manoel Nabão, homem de 51 anos deixou cair uma manga no terreiro perto do carreador. Por dias, passou por ela mas por vontade sua, a deixou alí, trabalhando com o tempo. O tempo passou, as chuvas encarregaram de colocar terra em volta dela, e com os dias, um broto surgiu. Hoje é uma árvore enorme, passa dos doze metros de altura e faz uma sombra confortável sobre a frente do bar e a estrada, um espaço com pouco mais de dez metros. É debaixo desse pé de manga que os frequentadores do bar estacionam suas carroças e bicicletas. Neste momento há dois cavalos amarrados em um palanque. Um deles com uma carroça carregada com quatro sacos de estopa cheios de semente de Milho. Da metade do bar para trás, moram Manoel e a família. A casa é feita de uma mistura de tijolos de barro com o barro produzido com a terra vermelha retirada da beira do córrego que corre nos fundos do sítio. O piso é de um vermelho escuro, onde Manoel gastou caixas de Pó Xadrez da mesma cor misturadas ao cimento e onde hoje, sua esposa, gasta horas de cera Canário para deixar o chão sempre brilhando. Dentro do bar o piso é apenas de cimento queimado, com um brilho já desgastado, mas sempre impecavelmente limpo. Há apenas um balcão que acompanha longa parte horizontal do bar e faz um pequeno L, seguindo da porta que dá acesso a casa para a porta que dá acesso à rua. Uma mesa de sinuca, já desgastada, com o tecido verde desbotado e manchado pelas insistentes quedas de copos de bebidas que teimam em deixar apoiadas nos contornos. Algumas vezes as bolas mudam de direção por causa de algum buraco causado pela brasa de um palheiro de algum desatento jogador. Manoel já gastou muita saliva pedindo pelo cuidado mas, como ninguém reclama da qualidade, ele também parou de teimar. Ela fica do lado direito do Salão, de frente para a segunda grande porta de entrada. Há espaço o suficiente entre ela e as paredes. Três mesas de ferro, todas vermelhas ficam dentro do bar. Algumas cadeiras ficam encostadas atrás das portas, mas o que mais se usa são as grandes banquetas que deixam o cliente com condições de apoiar o cotovelo no balcão. Duas janelas ajudam à entrada de Luz no salão. Uma de cada lado. As duas sempre ficam fechadas. A brisa costuma sempre entrar pela frente o Bar. As prateleiras atrás do balcão deixam a mostra os produtos do dia a dia. Os sabonetes, pacotes de arroz e sal, e produtos do dia a dia. Um grande freezer fica abaixo da prateleira e é acompanhado por um balcão onde Manoel costuama deixar os pães caseiros que sua mulher mesma produz. Em outra prateleira ele vende os produtos de trabalho, e outros secos e molhados estão distribuidos por todo o bar. Do lado de fora, debaixo da marquise do telhado, pregada à parede, há uma outra mesa de madeira. Dentro do bar estão Catarina Nabão, 50 anos, mulher de Manoel e sua filha Manoela, 16 anos, menina tímida, a caçula de seis irmãos, que atende o público mas não olha nos olhos. Na mesa de sinuca Francisco Daladema, 27, os irmãos Claudio, 40, e Claudiomiro Soares, 37 e Osmar Siqueira, 60 anos. Do lado de fora, Orípes Modesto, 81, fuma um cigarro de palha e observa os dois filhos do Pinguelo – Apelido do filho mais velho de Manoel e Catarina – Márcio Nabão, 8 anos e Cristiano Nabão, 12. Eles brincam na terra apostando uma corrida com tampinhas de garrafa. Cada um dá três petelecos na tampinha e precisa fazer ela percorrer a maior distância de uma pista super elaborada, desenhada com uma inchada que afundou a terra e deixou duas pequenas margens onde eles, volta e meia, começam uma discussão sobre se a tampinha saiu ou não da pista quando ela para. Sair da pista é voltar uma distância. No balcão, Baiano, 32 anos, toma mais um trago de cachaça e ouve, desacreditado a expressão de Manoel.
– Juro por Deus! Eu vi!
– Eu não acredito em assombração, retruca Baiano.
– Deixa o homem terminar a história, interrompe irritado Cláudio enquanto se prepara para dar uma tacada de sinuca.
Manoel retoma o raciocínio – A Manoela estava com febre. Catarina ficou em casa com ela e eu fui até a cidade pra falar com o dr. Atto. Queria pedir um xarope pra bichinha. Na volta, peguei a estrada do Mirassol pra cortar caminho e chegar mais rápido e casa, e por ali vocês sabem, passa bem na entrada do sítio do finado Cristóvão. Eu vinha com minha carroça pelo carreador. Tinha pendurado um lampião numa vara pra clarear o caminho pro cavalo. Fazia quatro dias que o finado havia morrido e ninguém mais tinha visto Dona Maria. Dizem que ela se trancou na casa e ficou esperando o marido vir buscar ela. Quando eu passava perto do cafezal do Finado alguma coisa passou correndo por debaixo dos pés de café e assustou meu cavalo. Ele chegou a empinar e eu acabei caindo pra trás da carroça no meio das palhas de milho que tinha catado durante o dia. Consegui me levantar mas o cavalo não estava bem. Ofegava forte, parecia querer sair do lugar mas não ia nem pra frente, nem pra trás. Eu tirei logo meu revólver e fiquei esperando um bicho pular do mato.
– Tá cheio de histórias de onça parda que ataca de noite por essas terras – alertou Baiano.
– Não sei o que era, perguntei bem alto: QUEM ESTÁ AÍ? – eu gritei umas três vezes – É melhor não brincar comigo que eu do TIRO! ATIRO MESMO, pra matar, seja quem for o desgraçado – Mas ficou tudo no silêncio. Aos poucos meu cavalo foi acalmando mas continuou respirando forte. Nunca ví ele fazer isso, nem quando um cachorro sai do mato em tocaia. Desci, peguei o lampião da carroça e aproximei ele pés de café mas não encontrei nada. Voltei a subir na carroça, coloquei meu revólver na cintura e pendurei de novo o lampião. Não andamos nem cinco metros e chegamos na entrada do sitio do finado Cristóvão. Foi aí que apareceu uma Luz forte vindo lá de trás da estrada por onde eu tinha vindo. Pensei que fosse um trator, com aquelas lanternas fortes, até encostei a carroça pro lado da entrada do sítio.
– Era um trator?, perguntou Claudiomiro.
– Não sei que diabos era aquilo. Aquela Luz começou a se aproximar de mim, mas não fazia barulho. Fiquei olhando meio sem saber o que fazer. Desci da carroça, saquei da pistola e ameacei o desgraçado. OU PARA OU ATIRO!
– Garanto que na hora estava se cagando todo, rio Osmar.
Manoel continuou sem dar bola para o comentário.
A Luz continuou a vir na minha direção. Forcei o olho pra tentar enxergar mas ela continuou vindo. Aí veio um vento forte que arrancou meu chapéu. Fiquei paralisado. Quando pensei em atirar naquela coisa minha mão começou a queimar.
– A queimar? – perguntou o incrédulo Baiano.
– Queimou. Parecia que o revólver ia explodir de tão quente. E quando eu a soltei ela não caiu no chão. Ficou parada alí, no ar, na minha frente.
– Ah! Manoel! Conta outra, Baiano interrompeu novamente.
– Fica quieto Baiano – retrucou Claudomiro – que agora se apoiava no balcão junto com os outros parceiros da Sinuca – Continua Manoel.
– A arma estava ali, parada no ar. Eu fiquei desesperado, quis correr, mas não senti mais o chão. Eu também estava boiando no ar.
– Meu Deus! – exclamou Catarina enquanto servia outra dose de cachaça para o marido.
– Que Deus o que Catarina? – tomou de um trago a cachaça – Isso é coisa do diabo! Aquela Luz ficou lá na minha frente e depois ela saiu e como um raio, desceu o carreador que leva pra casa do finado sumiu lá na baixada. Foi aí que eu cai no chão. E caiu também minha carroça e meu Cavalo.
– Ai meu Deus do céu! – interveio Catarina – É assombração! Jesus me proteja.
– Montei logo na carroça, de qualquer jeito. Toquei meu cavalo pra andar e voltei correndo pra casa. Rezei um terço inteiro no caminho. Quando cheguei na curva do Araçá, lá do alto virei pra traz pois dá para ver a casa do finado lá de cima. Foi então que eu ví, juro por Deus que eu ví! Aquela Luz estava dando voltas em torno da casa. Aí eu fiquei frio na espinha, chicoteei meu cavalo e voltei pra casa.

CONTINUA…