A LUZ – Parte 3 DE 3

Jornalista


Abriu os olhos de uma vez só. O borrão da imagem pouco dizia sobre onde estava. Demorou um pouco mais que o comum para perceber que estava no mesmo lugar onde começou a beber na noite anterior. O sol rasgava as fendas das tábuas do pequeno quarto no fundo da estrebaria. Foi o calor que fez com que Baiano recobrasse a consciência, pelo menos em parte. Levantou da cama, caminhou até a janela e a abriu. Procurou com os olhos ainda turvos por um pouco de água. Para a sua maior infelicidade só encontrou cachaça. Recusou. Seu estômago parecia mais região insensível. Havia algo alí mas ao mesmo tempo não havia. Talvez a sensação dele fosse de que haviam aplicado uma forte anestesia no local. Respirou fundo o cheiro do capim verde que crescia cerca de um metro à frente da janela, logo depois da cerca. Já não havia orvalho. Forçou os olhos para ver melhor. Ainda estava bêbado mas agora, consciente. Deu meia volta dentro do próprio quarto e caminhou para a porta. Um banho de Sol seria a melhor cura para a ressaca. Num flash da memória se lembrou de que combinou ir até a casa de Orípes para ver a tal LUZ. Por um momento ficou com muita preguiça mas ao tempo em que o Sol ia aquecendo eu corpo ele começava a respirar um pouco mais forte até que sentiu um certo poder voltar a sua confiança. Pensou melhor e sentiu que seria o fim de sua fama se ele não fosse. E se aquela tal LUZ nunca mais aparecer. Seria o fim do Valente Baiano. Dalí, chamariam ele de Baiano Cagão. Pensou mais um pouco e agora o Sol já havia tomado todo seu corpo. Lembrou que estava faminto. Andou um pouco, apoiou os braços sob a cerca e ficou alí a observar aquele imenso pasto.
A casa de Orípes fica numa baixada do sítio, mas ainda não fica na parte mais baixa do terreno. Mais uns mil metros para frente da casa há uma forte inclinação de terra que se estende por mais uns trezentos metros até chegar num córrego. É alí a divisa do sítio dele com o do Finado. À beira do rio é margeada de árvores. Olhando da casa se vê as copas delas, todas fechadas, formando um imenso tapete que percorre todas as margens do rio. De um lado ao outro é a única faixa de mata que existe por alí. Orípes está sentado de costas para sua casa. Olha desatento e sem compromisso para a casa do Finado. Masca um pedaço de fumo e cospe na terra o tabaco já sem gosto. Com um pequeno canivete retira pequenas lascas que leva à boca. No alto da colina, longe ainda da casa surge a carroça de Manoel. A mesma, com o Lampião pendurado, o Cavalo Marrom. Desta vez ele vem acompanhado da filha e da esposa. Mesmo sem olhar para trás, Orípe grita para a mulher.
– Chegaram as visitas.
Dolfina é senhora judiada pela vida. Mesmo assim não abandona o sorriso. Mulher paridera, deu filhos cheios de saúde para o esposo. Dinheiro para ela nunca fez diferença. Sabia apenas que não faltava comida na dispensa, nem pano pra fazer seus vestidos. Quando precisava de alguma coisa era o marido quem ia atrás. Na cidade ia quando havia missa. Gostava de ver a igreja sendo construída e tinha uma amiga de infância que morava em frente. Vez por mês era motivo de uma visita, um almoço e alguma conversa jogada fora. A amiga era filha de uns empregados antigos do sogro. Com o tempo a Maria de Lourdes teve um pouco de sorte. O marido dela acabou ganhando uma casa de presente de um médico da cidade. Foram morar bem no centro, em frente à igreja. Dolfina não queria trocar o sítio pela cidade. Gostava mesmo era de olhar para as criação, matar o frango e depois ferver a água para limpar. Queria continuar a acordar de manhã para varrer o terreno de terra seca, recolher as folhas de Araça que insistiam em cair durante todo o verão.
– Catarina! Como vai a comadre?, veio logo dizendo Dolfina já descendo os degraus de uma pequena sacada na frente da casa.
– To bem! E a senhora como vai?
– Vou bem também. E o compadre., perguntou Dolfina para o Manoel.
– Sempre bem comadre. Seu Orípes! Como está o senhor!?
– Bem Manoel. Vamos chegar!
Manoela pediu a benção para os dois, depois os acompanhou para as cadeiras que estavam na varanda. Sentou alí e ficou na impaciência de não ter outra adolescente para conversar. Dolfina e Zenira foram entrando para dentro de casa onde os dois frangos que ela preparava já estavam na panela sobre o fogo do forno a lenha.
– É verdade que a alma do finado aparece ai nó sítio do lado seu Orípes?, perguntou curiosa e amedrontada a pequena Manoela.
Orípes olhou bem para os olhos dela e como se quisesse dizer mais do que disse respondeu de forma seca.
– Sim.
Manoel percebeu que a filha ficou um pouco sem jeito. Ela devia ter mais um monte de perguntas para fazer mas era mais prudente que os homens conversassem entre eles. Pelo menos era o que Manoel pensava.
– O Osmar não vem?
– Aquele lá que é cagão, respondeu rindo Orípes.
– E o Baiano? Ele falou tanto que é o valentão que quero ver ele encarar essa LUZ hoje.
– Falando no Diabo…
No alto da estradinha surgiu Baiano montado no cavalo. Vinha tão rápido que os dois não trocaram mais nenhuma palavra até ele chegar. O cavalo parou cravando os cascos na terra seca e sentando um pouco o traseiro para conseguir obedecer o comando de Baiano. Quando desmontou do bicho e o amarrou à árvore. O Cavalo respirava com força o que indicava que ele veio no galope de longe. Baiano parecia bem confiante. Peito estufado, as mesmas roupas de ontem, e um olhar sério.
– Então é daqui que dá para ver a alma do finado?, perguntou desafiando Manoel e Orípes.
Mal perguntou e mais uma carroça surgiu lá em cima na estradinha.
– Será o Osmar?, perguntou Orípes.
– Não seu Orípes, é o Cláudio que vem lá.
Cláudio chegou de forma mansa, tanquila, parou a carroça perto do cavalo de Baiano, acenou de longe e desceu. Subiu até a varanda e cumprimentou todos.
– Então é hoje heim Baiano!?, depois olhou para o Orípes e completou., Tem Trilha para chegar lá do outro lado?
– Tem até o rio lá embaixo. Depois da cerca e das árvores tem que subir pelo cafesal.
– Tá pensando em ir lá Cláudio?, perguntou assustado Manoel.
– Eu não!
– Eh bando de cagão. Com medo de nada! Eu vou lá pra ver que troço é esse que deixas vocês borrando as calças.
Baiano deixou sair aquele desafio sem querer. Sentiu que sua irritação por causa da fome foi a responsável. Agora era tarde demais pra voltar atrás.
– Quero ver se você é macho mesmo ou se vai voltar todo cagado de lá., desafiou Orípes.
A risada foi coletiva. Até Manoela que estava um pouco mais quieta riu. Baiano não. ficou sério, sizudo, taciturno. Alí mudou seu comportamento. Preferia que aquela história tivesse fim logo. Estava ali mais por causa da comida. Depois ia lá no terreno do lado, dava uma volta e ia embora. O que de pior poderia acontecer.
– Pode deixar seu Orípes. Seja que for o desgraçado que tá fazendo essa brincadeira de mal gosto hoje quem vai ficar todo cagado é ele. Vou dar um belo dum tiro pra raspar na bunda do miserável.
Dolfina aparece à porta enxugando as mão com um pano de prato branco.
– Venham! A comida já está na mesa.
Baiano come rápido, muito rápido. Colherada atrás de colherada enche a boca de arroz, feijão e salada de repolho. Vai engolindo como se não houvesse tempo para mastigar. Depois para, pega um pedaço de frango e passa a devorar tudo até arrancar a cartilagem do osso. Deixa brilhando. No chão os cachorros ficam aguardando, de forma educada, pelo próximo pedaço. Para fazer descer a comida toma um copo de cerveja atrás do outro. Hoje não tomou pinga. Preferiu um dia de repouso para poder estar bem à noite. Na mesa a conversa continua mas parece que os ouvidos de Baiano estão tampados, como se por pressão de altitude, ele escuta só os ecos das vozes dos colegas. Manoel conta piadas. Orípes ri do outro lado com a boca cheia, deixando, ora ou outra cair alguns grãos de arroz no peito. Dolfina, na frente de Manoel se preocupa se todos estão comendo bem e passa a maior parte do tempo perguntando se não querem mais. Quando pergunta a Baiano ele a olha, não responde. Ela nem liga, vai logo colocando mais uma colherada de arroz, outra de feijão, mais uma asa de frango. Baiano vai devorando tudo como se não houvesse comido nada há dias, e talvez não tenha mesmo. Manoela já terminou de comer, está de pé, na janela, olhando para a casa do finado.
– Ai meu Pai do Céu! Gente, vem ver! É a alma do finado.
O Manoel levanta derrubando o garfo cheio de arroz no chão. – Eu não falei que era verdade?
O Baiano que estava numa espécie de transe volta ao ambiente. Cláudio não deixa ele nem terminar de mastigar e já vai intimando.
– Aí Machão. Agora você vai ter que provar que é valente mesmo!
– Deixa o homem – interveio Orípes – Não dá para brincar com essas coisas. É perigoso.
As duas janelas da cozinha de onde é possível ver a casa do falecido ficam abarrotadas. Ninguém se arriscou a sair da varanda, não até que o Baiano, estufando o peito, tomando o último copo de cerveja e terminando de engolir o último pedaço de frango.
Minha mãe contava cada história de assombração – começou Dolfina -, Uma vez ela falou que as almas dos que tinham morrido aqui em casa apareciam para dar surras nela. E era cada surra.
Manoel e Manoela acompanham Baiano e aos poucos a varanda fica cheia de curiosos. Claudio se aproxima de Orípes, e como que com mais medo do que dento de casa pergunta.
– Mas é o que é que essa alma pode fazer pra gente?
– Elas carregam você para um lugar de onde você não consegue sair. É como se fosse um labirinto. Aí elas ficam te aterrorizando, até que você morre de medo. Quando leva sorte de alguém achar seu corpo e você é enterrado com a benção do padre, dizem que a alma se salva, mas no caso de não acharem mais você, a alma vai direto pro inferno.
Baiano se engasga com um pequeno grão de arroz que ainda estava perdido na boa. Dá uma tossida grossa e alta. Ninguém repara.
– Credo seu Orípes. E o senhor acredita nessas histórias? – retrucou Cláudio.
– Eu já vi Lobisomem arranhando a porta de madrugada. Já ví saci-pererê, Mula sem cabeça, fantasma. Eu não duvido de nada.
Lá longe, na outra colina, a Luz estava parada, sobre a casa do finado. De uma hora para a outra ela começa a se movimentar. Manoel parece perder as forças nas pernas e quase grita.
– Gente, olha lá, Ai Deus do Céu! Tá se mexendo!
Baiano não resiste, mesmo com um certo mal estar ainda pelo engasgo solta uma risada forte olhando para o Manoel. Cláudio se levanta e ajuda Orípes a se levantar. Ele havia sentado na sua cadeira de descanso na varanda. Os dois descem os degraus. Baiano olha para a Luz e replica o medo de todo mundo.
– Assombração não existe. Bando de Cagão.
A Luz corre por entre os pés de café do sítio vizinho. Ela some quando chega perto do chão mas ainda assim é possível ver um um clarão se movimentando. Depois ela sobe, sobe um pouco acima dos pés de café, corre para outro ponto e desce de novo. Todos assistem ao espetáculo quase hipnotizados. Um único lampião ilumina a varanda. Agora é noite fechada. Só há a luz da casa do vizinho e a da casa de Orípes. Catarina parece pressentir um medo ainda maior olhando para aquela Luz.
– Não é melhor apagar esse lampião?
– Tá louca mãe, e ficar no escuro?
– Fiquem quietas vocês duas – retruca Manoel, visivelmente abalado por ver aquela luz novamente.
– Desde a morte do finado, ela aparece alí todas as noites – Orípes parece pensar alto.
– Será que não é melhor acender uma vela pro finado? Rezar uma missa para ele encontrar a Luz? – diz Dolfina.
– E tá parecendo que ele precisa de LUZ dona Dolfina – responde Cláudio sendo irônico.
– Não brinca com essas coisas Cláudio, termina Dolfina.
– Eu vou lá – exclama Baiano.
– Tá louco homem?, Dolfina parece não acreditar.
– Deixa dona Dolfina. O homem aí não tem medo de nada – interrompe Cláudio.
– Então vai lá. Mas não vai ficar escondido na beira do rio, – intima Manoel -, Tem que provar que foi.
– E como é que eu vou provar que fui até lá?
– É só entrar na casa da finada e trazer alguma coisa pra nós ver!, responde Manoel.
– Leva a cachaça! Você vai precisar, – recomenda Orípes.
– Precisa não. Volto logo pra tomar um gole e ainda trago uma foto da finada.
– Que homem corajoso, não é pai!? Bem o contrário do senhor!
– Manoela? Se comporta menina. Já lhe junto a Mão nos dentes se repetir isso.
Baiano ainda está com o revólver na cintura. Ele desce as escadas, passa pelo seu Orípes e pede sua benção. Depois caminha pela trilha que segue pelo pasto e desce a pequena colina em direção ao rio. Em menos de minuto ele some na escuridão. No alto da colina a LUZ para. Começa a fazer movimentos mais suaves até chegar perto da casa onde estaciona. Há uma tensão no ar. Na varanda reina o silêncio.
– Ninguém pensou em dar um lampião pra ele levar?, pensou alto Manoel.
Os passos eram tranquilos. No peito uma inquietação. É claro que Baiano já sentiu medo, e agora era um desses momentos. Sabia que aquilo que estava vendo era inexplicável. Agora era tarde, já estava no meio do caminho e podia ouvir o rio logo à frente. Dentro da mata a escuridão aumentou. Precisou esticar bem os braços para ir sentindo os ganhos no caminho.
– Cacete, não dá pra ver nada!
Estava perto de uma parte mais inclinada da colina. Precisou sentar e ir descendo, com todo o cuidado pelo morro. Pisava nas raízes e se apoiava no que conseguia encontrar. Conhecia bem aquela área. Volta e meia descia ali para fazer algum ajuste na bomba de água. Sabia que o rio era raso e estreito. Se tivesse sorte poderia pisar em uma ou outra pedra e não molhar os pés. Acabou pisando dentro da água mesmo. A água lhe subiu na altura dos joelhos. Deu ali uns três passos e subiu na outra margem, num outro pedaço de barranco. Mais alguns passos encontrou a cerca da divisa. Subiu a fôlego rápido o barranco, como se houvesse pressa em subir a colina. No alto, logo depois de sair da mata parou e se apoiou em uma árvore. Menos de seis metros à frente começava o cafezal.
Os pés estavam bem formados, maduros. Foram plantados há anos e agora tinha quase três metros de altura. De longe não pareciam tão altos. Pode olhar de onde estava os corredores de terra carpida, lindas trilhas de árvores enfileiradas, cheias, gordas de folhas verdes, brilhosas com o luar e o orvalho da noite. Aproveitou o momento e pegou um palheiro que trazia no bolso. Riscou um fósforo e o levou para a frente do rosto para acender o cigarro. O brilho da chama fez surgir à sua frente uma sombra aterrorizante. Algo muito feio brilhou como se desenhado na fumaça misturado com o brilho da chama. Baiano não segurou. Soltou um grito de susto, derrubou o cigarro e o fósforo. Subiu tão rápido as costas na árvore em que estava apoiado que chegou a ralar as costas. Olhou de novo para a escuridão e não viu mais nada. O coração acelerado batia forte de sentir na costela. A respiração não parecia ser suficiente para recuperar o fôlego.
– Porra! Não vai amarelar agora Serguei!, – disse convicto para ganhar coragem.
Levantou a cabeça e se desencostou da árvore. Sacou o revólver e se colocou a seguir o cafezal por onde acreditava ser o caminho da casa. No final da trilha, até onde conseguia ver, havia outro carreador com fileiras de pés de café. Não era possível ver nada de nenhum dos lados. Foi seguindo seu instinto e caminhando colina acima. Já no meio do caminho sentiu pela primeira vez na noite um arrepio gelado passar pelo corpo. Pareceu mais uma brisa de repente. Assustado, vira para os dois lados. Não há um barulho sequer. Nem grilos, nem as folhas ao vento. Nada. Baiano olha para um lado e para o outro. Força os olhos para a escuridão parece ter ficado ainda mais negra. Ele resolve se sentar no chão e olhar para trás. Agora vem a sensação de que tem alguma coisa atrás dele. Ou alguma coisa pode sair debaixo dos pés de café. “Que Merda” – pensa, Baiano está com muito medo. Olhando para trás, ouve o chacoalhar dos galhos de um pé de café, distante uns cinco metros dele. Espera um pouco até que seu coração desacelerar e volta a andar.
Caminha até o fim do corredor. Quando encontra o outro paredão de pés de café, que cortam sua frente, encontra também uma escada de madeira sob um dos pés. Ele a pega e apoia na árvore. Depois sobe, tomando cuidado para não quebrar nenhum degrau e correr o risco de se machucar. Quando chega na copa da árvore, olha para os lados e observa todo o terreno. No alto, vê a casa do finado, está longe ainda! Lá, sobre a casa, a LUZ impera. Agora parece um pouco mais brilhosa que de longe e maior também. Baiano se esforça para cerrar os olhos e tentar definir o que emite aquela LUZ. Não consegue! A copa da árvore quebra e a escada faz um leve movimento para frente. Baiano se assusta e se mexe rápido para se manter equilibrado. Quando volta a olhar para a LUZ, percebe que agora ela vem na sua direção. Vem rápido! Ele sente um arrepio forte subir pela coluna e desce mais rápido ainda pela escada. Tão rápido que pisa mais forte em um degrau que se quebra e ele cai. Procura o revólver na cintura mas esse também cai. A Luz passa correndo por cima dele. Só um ponto brilhante uma luz branca, sem forma, nada. A mão corre pela terra enquanto os olhos acompanham o brilho que vai abandonando a ponta dos galhos mais altos do cafezal. Quando encontra a arma logo a trás para a mesma direção dos olhos. Aponta para cima enquanto vai recuando, sentado mesmo até ficar meio escondido debaixo de um dos pés de café.
Fica alí sentado pensando sozinho. “Que merda é essa! Que merda é essa!”. Seu corpo parece resistir a querer levantar e seguir adiante. “Vou correndo. Vou correndo até a casa, pego a primeira coisa que encontrar e volto correndo. O finado nem vai me ver”. Uma coruja solta dois pios, U Uuuuuuuu – U Uuuuuuuuuu.
Baiano se levanta devagar, respira fundo, e com a arma na mão se prepara para começar a correr. Sente uma primeira dor no estômago. Começa a correr. No meio do caminho olha para cima, vê a copa das árvores. Nenhum brilho. Aquela luz deve estar longe. “Só mais uns metros”, pensa consigo. “Só mais uns metros. Chego no final e corto para a esquerda. Corro em direção à casa”. O Estômago dá uma fisgada mais forte e ele é obrigado a parar. Entra debaixo de um pé de café para evitar ser pego de surpresa. Respira fundo e fica alí sentado quando alguma coisa gelada passa pelas suas costas.
– Ai meu Deus do céu!
Baiano dá um salto que o joga debaixo do outro pé de café. Olha para trás mas não vê nada. O estômago dá mais uma fisgada forte. “Devia ter ficado quieto. Que burro que eu sou. O que é que eu vou fazer agora!?”. Ele volta para a trilha, engatinha alguns passos e encontra logo depois de uma curva suave um outro corredor dos pés de café. “É para lá que eu vou”, decide. Fica de pé. Sente uma cólica ainda mais forte na barriga. Quando começa a caminhar, lentamente, se assusta. Lá na frente, no final do corredor aparece a LUZ. À meia altura, para e fica imóvel. Baiano começa a sua frio. Logo tenta lembrar de alguma oração. Mistura tudo. “Nossa Senhora, Jesus Cristo. Caralho. Meu Deus! Por que não sei rezar. Alguém me ajude”. A LUZ continua no mesmo lugar. Parece olhar para o Baiano. Quando pensa em voltar para debaixo do pé de café ela vem para cima dele. Rápida, não lhe dá tempo para reagir. Nem mesmo consegue. Como disse o Manoel, ele parece flutuar no ar. Quando ela chega perto, Baiano sente um calorão subir no seu peito. Logo percebe que está sendo arrastado pelo cafezal. Não sente nada o pegando, nem o apertando, mas sente um tremendo desconforto. Está com medo. Muito medo. Chora.
De repente ele cai no chão. Rola pela terra até parar num monte de folhas secas. Ele olha para o corredor e vê a LUZ alí, parece estar o encarando.
– Me desculpa! Não me mata! Pelo amor de Deus! Eu prometo que vou embora daqui!
Não dá tempo de dizer mais nada a Luz vem de volta para cima de Baiano, mas desta vez logo que se aproxima ele tem aquela mesma visão de antes. Uma sombra que parece se desenhar no negro da escuridão revela uma criatura que nem ele poderia descrever mas pelos seus olhos mais parecia a visão do próprio capeta. A LUZ passa por ele e some pelo meio do Cafezal.
Baiano chora copiosamente. Sente cada vez mais a dor no estômago. Tenta gritar mas sua voz não sai.
– soc… socorr… sss…..
Perdeu a voz. Está em choque. Não consegue firmar as pernas pois há uma moleza que lhe toma conta do corpo inteiro. Fica imóvel ali. Lá na frente olha de volta para o corredor e vê a Luz. Ela está de novo parada na frente dele. De onde ela veio ele não precisa. Parece estar irritada com o que Baiano fez. Pelo menos é o que ele pensa. Ela some por entre as árvores de café e começa a fazer zig zag, destruindo parte dos galhos por onde passa. Quando ela chega bem perto de Baiano esse não se aguenta e se caga.
Percebendo sua situação tenta pedir desculpas mas não consegue. Já sem força vê a Luz chegar cada vez mais perto. De repente paralisa. Para também de respirar.

***
No bar, o caixão com o corpo de Baiano está depositado sobre a mesa de sinuca.
– Do que foi que ele morreu seu Manoel?, pergunta Osmar.
– O doutor falou que foi de congestão.
– Esse doutor não sabe de nada! O Baiano morreu de morte matada. Foi a alma penada do Finado que o matou, – retrucou sentido Orípes.
– Deus que me perdoe mas eu não desejo isso pra ninguém, respondeu Manoel.
– E a LUZ, seu Orípes, não apareceu mais?
– Não apareceu!
– E o senhor viu mesmo aquela Luz?, pergunta um desconhecido para o Manoel que estava no bar.
– Juro por Deus. Eu Ví!

FIM