A Montanha Russa

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





Lá estava você, na fila, pela primeira vez, encarando a monstruosidade que a engenharia da diversão criou. Um misto de medo, ansiedade e adrenalina tomava conta de seu corpo. Era visível nos braços e pernas que não paravam quietos no lugar. A cabeça girava sobre o pescoço, percorrendo o caminho tortuoso até onde os olhos alcançavam.

Quando o vagão chegou, as pernas bambas caminharam pelo chão de metal, fazendo dos seus passos e dos outros uma marcha cacofônica acelerada.

O banco desconfortável e todas as proteções lhe faziam pensar no quanto a confiança na tecnologia é baseada apenas no hábito. “Se não falhou antes, não deve falhar agora”… E talvez você tenha imaginado se todo mundo que morreu em acidentes também pensou isso.

No primeiro sinal de movimento o coração disparou. Seu corpo podia estar parado, mas era como se corresse uma maratona para fugir de um guepardo. Na primeira descida, a temperatura do corpo pareceu variar de quente para fria, muito rapidamente. O suor escorreu gelado. A velocidade fez o vento levar o suor embora. A visão que não acompanhava mais os movimentos, oscilava entre olhar fixo para o caminho ou vaguear para o mundo lá em baixo. Algo pareceu agarrar a sua garganta e apertar. Outros gritavam. Você não conseguia. O ar parecia entrar em quantidades grandes demais para seus pulmões suportarem. Era como se afogar no mar, porém com ar. De cabeça para baixo, a gravidade parecia mais forte. Era como se seu corpo pesasse uma tonelada. O sangue parecia querer sair pelos ouvidos. Os braços não aguentavam mais segurar com tanta força a proteção sobre seu peito e caiam sem vida, mas trêmulos, soltos no ar. A sensação se repetiu nas pernas. Involuntariamente os olhos se fecharam por um momento, com força, tentando reduzir a quantidade de informações que o cérebro estava captando, mas as sensações do corpo pareciam, então, enviar sinais em dobro. Era melhor manter os olhos abertos.

No final, apesar de tudo, parecia que ninguém havia notado tudo aquilo pelo o que você passou. Talvez com alguns tenha sido parecido. Talvez com menos ou mais intensidade.

Mas assim que você deixou o púlpito, sob aplausos das centenas de estudantes, você sabia, mais do que isso, você sentia, que a palestra havia acabado.

Em casa, você dormiu escondido debaixo da cama.