A Praça

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


Meu nome estava pichado na praça, ao lado do banco onde eu sentava para estudar quase todo os dias após o almoço naquele restaurante do supermercado, que eu ia só para comer broto de feijão. Mas aquela não era minha letra. Meu jota parece um u e meu e um tridente deitado, meu a é um triângulo e meu ene é o meu jota de cabeça para baixo.

Não haviam músicos na praça deles, só a cacofonia do trânsito, dos skatistas na quadra, do taxista lavando o carro e dos passos das pessoas que não olhavam pra mim. Ali eu estudava, lia Sartre com 6B em mãos, sublinhando um parágrafo atrás do outro. Penúltimo semestre de aula, últimos meses naquele emprego. Eu sabia que a rotina seria perturbada.

Quando você faz parte de um lugar, o lugar faz parte de você. E da mesma forma que os demais se tornaram parte da minha história, eu gostava de acreditar que fazia parte da história deles também.

Era o cara de preto, com “boné do PT”, lendo algo tão grosso quanto a Bíblia, tomando chocoleite e fingindo que ignorava tudo em volta, assim como algumas das pessoas que passavam sem supostamente me ver.

Com a demissão veio a mudança. Novas rotinas, outras praças, outras histórias e uma mesma pessoa mostrando que certas narrativas não haviam terminado.

Talvez eu deva escrever um romance e não uma crônica.

Mas no fundo, lá naquela época, os estudos eram só um pretexto, assim como o achocolatado. Havia um lugar melhor para ler. Bem mais perto. E outros lugares para almoçar, com outras histórias para imaginar. Mas só ali, na praça sem músicos, havia meu nome escrito com uma letra mais bonita que a minha.