A viagem de Emílio

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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A viagem de Emílio – I

– Onde estou? – Perguntou o soldado. Havia dor em sua voz e sede em sua garganta. As ressacas faziam parte da rotina do rapaz, mas a dor de cabeça agora lhe parecia insuportável. E os barulhos, vindo de algum lugar aparentemente distante, ecoavam em seu crânio. Mas o pior eram os gritos, choros e lamentos que estavam, estes sim, ao seu lado.

– No hospital! – Uma voz feminina respondeu docemente, quase como um alívio para os sintomas da ressaca, mas em seguida ela gritou de forma tão aguda que o soldado gemeu de dor.

– Doutor, esse aqui acordou também!

O rapaz então abriu os olhos. A luz o incomodava tanto quanto os sons. A moça parecia um fantasma, mas havia sangue em suas mangas. O lugar era uma grande barraca. Nunca havia visto uma tenda tão grande. Uma longa fila de camas paralelas estendia-se por mais de duzentos metros. Nelas haviam homens, centenas deles, feridos, mutilados, com cabeças, pernas e braços enfaixados. Faixas sujas de sangue. Mas o soldado estava inteiro.

Um rapaz, também vestido de branco, chegou. Examinou os olhos do soldado. E com a mão sobre a testa do enfermo concluiu:

– Ainda está queimando de febre!

– Ele estava delirando, doutor. Antes de acordar, falava em lutas com espadas, e que precisava encontrar alguém chamado Emílio.

O nome parecia fazer sentido. Havia mesmo sonhado com isso, mas o soldado ainda não se lembrava de como foi parar ali. Queria ter perguntado isso ao jovem doutor, porém a pergunta veio exatamente dele:

– Se lembra de como veio parar aqui? O que aconteceu antes de você apagar? – O jovem médico parecia muito preocupado, assim como a enfermeira, que ignorava os chamados de outros enfermos para ouvir a história do segundo homem que acabara de acordar depois de um longo período de delírios.

Mas a memória do soldado estava em fragmentos. Confusa. Nublada como um sonho. Lembrava de um psicanalista, entrevistando soldados, falando sobre distúrbios do sono. Havia algo referente a uma missão, encontrar um soldado perdido no campo, em algum lugar nas trincheiras. Mas ele não tinha certeza.

– Deve ser algum efeito do gás. Algo que não tenhamos estudado ainda. – Concluiu o jovem médico, voltando-se para a enfermeira, chamando-a para longe do soldado ao mesmo tempo em que acenava para ele ficar na cama. Mesmo falando baixo, sussurrando, o soldado conseguiu distinguir algumas palavras. Médico e enfermeira falavam sobre um outro rapaz, com sintomas parecidos, que também acordou recentemente, porém este fugiu antes que pudessem saber mais a respeito. A fuga do soldado deveria ser evitada, principalmente porque seu antecessor havia roubado parte do estoque de morfina do hospital.

O soldado tentou ficar de pé, mas tudo em sua volta pareceu girar. Ele ia cair. Foi segurado pelo doutor e pela enfermeira. Não foi fácil devido ao seu tamanho. Corpulento o soldado, apesar de ainda ter as pernas dormentes, movia muito bem os braços, debatendo-se e ficando cada vez mais agressivo, pedindo para ir embora. O médico gritou por ajuda. Outros homens chegaram, um deles trazendo uma seringa. A droga foi aplicada no pescoço do soldado e ele voltou a dormir. Voltou a sonhar com brigas em tavernas, espadas e um bruxo.


A viagem de Emílio – II

– O que devo fazer? – Perguntou o soldado, em tom de desprezo, ainda não acreditando naquela história. – Só dormir? – O boticário, que parecia bastante ansioso e não tirava os olhos da porta da estalagem, respondeu bruscamente:

– Só dormir? Não! Não! Nada disso! Você estará consciente! Eu já disse! Tudo vai parecer real para você. Você precisará encontrar o…

– Emílio! Sim, eu entendi. Mas por quê você mesmo não vai, se isso parece tão fácil? – O soldado ainda não levava a sério todo aquele papo. Bebia sua cerveja e olhava para as mulheres que estavam no local, parecia procurar uma em especial. Bufando, o velho boticário tirou seu fumo do bolso e acendeu um cachimbo. Suas mãos logo pararam de tremer.

– Eu preciso controlar o processo. – Ele explicou – Aplicar as doses corretas de acordo com suas reações durante o seu sono. Por isso não posso… – Sua explicação foi interrompida pelo foco de seu olhar aterrorizado.

Alguém passou pela porta. Parou e olhou em volta antes de remover o capuz encharcado pela chuva noturna. Um rosto frio, sério como uma rocha, com traços de uma longa vida nada fácil. Ao notar o boticário sentado numa mesa no canto mais escuro da taverna, desprendeu o pequeno machado do cinto e andou em passos largos na direção do velho bruxo, levantando a voz enquanto dizia:

– Velho maldito! Assassino! Vai pagar pelo que fez com meu filho!

O machado acertou o encosto da cadeira. Do chão, o boticário viu os estilhaços de madeira caindo e o soldado levantando rapidamente. Gigante, o rapaz impôs medo ao estranho penas olhando para baixo. Sua mão segurou o braço do atacante como se um adulto agarrasse uma criança. O machado caiu no chão. O som foi ouvido por todos. O silêncio no salão denunciava os olhares na direção daquela mesa no canto escuro.

Um soco, de direita, e o soldado pôs o homem para dormir, sem precisar de nenhuma das ervas conhecidas pelo velho bruxo.


A viagem de Emílio – III

– Como cheguei aqui? – Perguntou o soldado – E que fedor é esse? – Mas calou-se antes de reclamar novamente sobre o cheiro ao perceber que era sua própria calça que estava encharcada de urina. Estava escuro, e havia muito barulho na rua, gritos de pessoas, choros e explosões. Um chiado seguido de um dedo pressionado contra seus lábios foram o sinal para ficar em silêncio.

– Eles estão lá fora. – Sussurrou uma moça com uma voz suave, mas que não conseguia esconder o medo. O local era um prédio abandonado, em ruínas. Paredes pichadas e restos de móveis velhos misturavam-se com o lixo de restos de comida, ratos, baratas e fezes.

A cabeça do soldado estava zonza. A tontura misturava-se com a fome, mas o cheiro insuportável lhe dava ânsia de vômito. Tentava-se lembrar de como chegou ali, mas sua mente parecia apenas reviver os eventos mais recentes: a viagem causada pela droga e as alucinações que teve por causa dela. Sonhou que estava num campo de batalha, cercado de pessoas mutiladas e que sua missão era encontrar um outro soldado. Emílio.

– Emílio. – Ele sussurrou para a moça que estava do seu lado. Ela parecia se importar. Parecia cuidar dele. Fazendo sinal para outra pessoa que estava deitada num velho colchão, o moça falou em uma voz muito baixa:

– Ele acordou também!

O rapaz no colchão, arrastou-se até o canto onde estavam, evitando passar muito perto do que restava de uma janela aberta, olhou para o soldado com uma expressão de horror.

– Cara, você não tá nada bem! – Segurou o braço do soldado, que reagiu tentando impedir, mas o rapaz teve tempo suficiente para ver as marcas das seringas. – Você consegue se lembrar de algo? De como veio parar aqui?

Mas o soldado não conseguia pensar em nada além da viagem. O barulho na rua e as luzes o perturbavam. A moça explicou que eram os drones da polícia procurando pelos drogados escondidos no prédio. Eles estavam cercados e não havia mais para onde fugir. Logo, gritos começaram a surgir nos andares de baixo. Haviam sons de tiros também. O pavor encheu os rostos de seus companheiros, mas a mente do soldado ainda não conseguia processar todas essas informações. Ele tremia, suava e sentia frio. Desconfiava que estava novamente urinando nas calças, mas não tinha certeza.

– Emílio. – Ele repetiu, pois era a única coisa que não saia de sua mente e que lhe parecia mais fácil e lógica de se dizer. Rapaz e moça se olharam, havia piedade naquele olhar. A droga conhecida pelo nome de Emílio era famosa por causar alucinações tão reais, que os usuários afirmavam que todos os seus desejos e sonhos se tornavam tão vívidos, que não havia mais como separar realidade e ficção. O rapaz alertou que, naquele estágio, mais uma dose poderia ser fatal. A moça tinha consciência disso, e aplicou mesmo assim. O soldado, assim chamado por só ter viagens com guerras, fechou seus olhos mais uma vez.


A viagem de Emílio – IV

– Para onde vamos? – Perguntou o soldado, forçando seu cavalo seguir a montaria do bruxo, que corria muito mais rápido. A noite chuvosa atrapalhava a visão do rapaz e nem sempre ele tinha certeza se o velho boticário estava mesmo galopando na sua frente pela estrada lamacenta, ou se sua montaria voava a poucos centímetros do chão.

– Para o meu laboratório! No castelo do Conde! – O velho respondeu, sem olhar para trás, com medo de estar ainda sendo perseguido pela comunidade raivosa. A luta na taverna havia apenas despertado o desejo de vingança dos cidadãos contra o boticário. Emílio já era o quinto jovem a desaparecer sob sua tutela. Pais inconformados exigiam justiça, mas o Conde ignorava o apelo dos plebeus, protegendo e financiando as experiências do velho bruxo.

Subindo a estrada que dava acesso ao castelo, podia-se ver claramente a multidão que se amontoava nas ruas do vale, portando tochas, como uma serpente de fogo crescendo e lentamente alcançando os fugitivos. Os portões se abriram aos gritos do boticário, que alertou os guardas da multidão enfurecida. O chefe da guarda bufou algo ofensivo contra o mago e depois gritou o sinal de alerta para sua guarnição. O soldado viu os antigos colegas de trabalho, os olhares eram de repreensão. Alguns cochichavam – O que ele faz aqui? – Outros eram menos discretos – Traidor! Mercenário!

No caminho para o laboratório, o próprio conde os encontrou no corredor de pedra, segurando uma vela.

– O que diabos está acontecendo? Eu disse para você não voltar para a vila! E agora meu chefe da guarda me informa que uma multidão furiosa quer sua cabeça!

– Eu preciso tentar de novo, senhor! Sei que agora dará certo! Vamos encontrar o Emílio! Então ele trará seu filho de volta!

O soldado ainda não havia compreendido toda a situação. Sabia apenas que seria pago para dormir, encontrar alguém no seu sonho e forçá-lo a acordar. Não sabia o porquê do velho ser chamado de assassino. Mas começava a temer as drogas do boticário, e que tipos de venenos o velho o faria ingerir para ter esse tal de sonho consciênte. O Conde media o soldado com o olhar, havia uma expressão de esperança em seu rosto e ao mesmo tempo tristeza.

O laboratório foi aberto e as tochas acenderam-se sozinhas, iluminando um grande porão de pedra, com muitas mesas, plantas, armários e prateleiras cheios de vidros, alguns com criaturas estranhas dentro. Mais ao fundo, seis camas enfileiradas, cinco delas com jovens deitados, dormindo. O boticário apontou a cama vazia para o soldado e disse:

– Esta é a sua! Ao lado do Emílio!


A viagem de Emílio – V

– Quem sou eu? – Perguntou o soldado. O sistema de busca exibiu as respostas ao seu redor. Haviam centenas de fotografias e vídeos. Imagens do passado, de sua infância, de sua família, amigos do colégio, do tempo do quartel. Documentos também foram exibidos em resposta. Sua carteira de trabalho, mostrando todas as empresas e funções que realizou na vida. Seu passaporte, cheio de carimbos de diversos países, fotos de praias e montanhas cobertas de neves, acompanhadas de publicidade de agências de viagem, todas perguntando se gostaria de viajar novamente.

Com um gesto, um aceno de mão em negação, todas as respostas sumiram, e o soldado fitava novamente o horizonte artificial do sistema de realidade virtual. Pensou novamente em como deveria realizar a questão. O sistema detectou a alteração química na biologia do soldado e perguntou na suave voz feminina da interface:

– Precisa de ajuda?

– Eu não sei o que procuro. – Respondeu o soldado. – Alguma coisa em minha vida, que não está em seu sistema, eu acho.

– Impossível. – A máquina respondeu – Tenho todo os dados de sua existência desde antes de seu nascimento, e com base em todas as variáveis possíveis posso calcular com 98,73% de exatidão todos os acontecimentos de seu futuro até a sua morte. Não só posso responder quem você é, como posso afirmar quem você será.

O soldado não parecia contente com a resposta dela. Então outra face digital surgiu numa janela flutuante. O sistema de defesa alertava que os rebeldes haviam invadido a nave e corriam em direção ao núcleo do compelxo. O soldado já sabia. Podia ouvir os gritos de seus ex colegas morrendo pelos corredores, para que ele pudesse concluir sua missão.

– Emílio. – Ele disse a senha finalmente, agindo dentro da menor chance de acerto do sistema, que se pudesse sentir alguma real emoção, expressaria o espanto. A voz feminina então narrou a apresentação de um arquivo, que foi aberto e exibido seu conteúdo incompleto.

– Pode fazer o upload. – Disse o soldado, em suas últimas palavras, transferindo pelo sistema conectado em sua rede neural para a memória da máquina, todas as experiências que a sua mente humana nunca conseguiu processar. Lembranças que nem o próprio soldado poderia afirmar que tinha. Era como um deitar-se para um coma profundo num nirvana digital, com todas as suas vidas passadas finalmente ordenadas e tão nítidas como uma experiência sensorial real.


A viagem de Emílio – VI

A multidão enfurecida invadiu o laboratório. Não houve chance de defesa para o Conde nem para o boticário. Os corpos em coma foram queimados como se estivessem já mortos. Todos eles, o soldado, o Emílio e o doente filho do Conde. E também de todos os demais que tentaram, através da magia do bruxo, invadir a mente da criança que vegetava há dois anos.

O soldado, dopado pela morfina não viu o exército inimigo alcançar o acampamento hospitalar. Foi um massacre covarde. Assim como os drogados não tiveram para onde fugir quando o drone sobrevoando o andar deles denunciou sua posição para o helicóptero da polícia bombardear toda a sala. E na nave, os rebeldes destruíram a câmara que sustentava a vida do cérebro do soldado, que flutuava num tanque com dezenas de conexões ao computador principal.

Emílio estava presente, mas o soldado não sabia como identificá-lo. O mundo a sua volta parecia um turbilhão de estrelas girando ao redor de uma estrela maior, muito maior e mais clara. O soldado não podia ver seu próprio corpo, tudo o que sentia era o próprio universo. E cada pensamento seu parecia não lhe pertencer apenas. Eram milhares de vozes ecoando ao mesmo tempo. E assim ele soube que Emílio estava com ele.

– Porque fugimos da missão, Emílio? Não deveríamos ter encontrado o garoto? Mas nós o encontramos, não foi? Ele estava em todo o lugar também. E quando percebemos isso, e percebemos que não havia tempo nem espaço, não havia mais motivos para voltar, pois deixamos de ser aqueles que percebem o espaço e o tempo, para nos tornarmos uno com eles. Você, como Emílio percebeu isso antes de mim. Como soldado eu procurei você em minha missão, sem perceber no começo que você já fazia parte de mim. Assim como vemos, agora e sempre, que todos fazem. E mesmo assim nos perguntamos qual o propósito de cada fragmento, se no final a experiência é uma só?

Acordo e me vejo só, num deserto, me perguntando, como cheguei aqui.