A Enchente

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





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Em 2008 acompanhávamos as previsões do tempo e as notícias sobre o nível do rio pela internet. Às vezes, eu saia de casa para ver com meus próprios olhos e do alto do morro via as ruas lá de baixo alagadas e alguns curiosos com os pés na água. Ilhados, nos sentávamos com os vizinhos no começo da noite, sob o teto da garagem de alguém, para trocarmos informações, as atualizações que recebíamos de amigos de outros bairros através do Twitter. Uns falavam de desmoronamento numa região, outros falavam em casas desabando, mas o que mais me perturbava era o velho da casa em frente, com suas histórias, relembrando outras enchentes, como quem compara tragédias e diz “a minha foi pior que a sua”. Eu não gostava dele.

O velho, com seu ar de deboche, me lembrava da grande enchente de 84. Naquele ano eu morava ainda com meus pais, era só um moleque de 14 anos, com duas irmãs mais novas, que choravam nos braços deles, enquanto saímos de casa com água nos joelhos. Um mutirão de vizinhos nos ajudou a retirar os móveis e eletrodomésticos. Atravessamos o muro de trás da casa e subimos um pequeno morro e nos abrigamos na velha casa cor de rosa, a mais alta da rua, que pertencia a amigos dos meus pais. Eu não gostava de lá, também.

E esse desconforto voltava sempre que o velho abria a sua perversa boca. Ele contava sobre como perdera tudo o que tinha, sobre morar em abrigos improvisados no pátio da igreja do bairro. Para cada notícia ruim, ele tinha uma resposta pior. Talvez fosse seu jeito de dizer que tudo vai ficar bem, mas para isso ele precisaria, pelo menos, tirar aquele sorriso do rosto. Enquanto isso, eu lembrava do cheiro de mofo do carpete da casa rosada, dos ratos que passavam pelo terreno fugindo das águas e da umidade sempre presente naqueles dias cinzas em que o sol não aparecia. Ele me deixava mal. Sim. Sua tragédia foi pior que a minha. Você ganhou, velho idiota. Eu pensava.

Ficamos uma semana naquela casa antiga. Seus donos eram um casal com dois filhos adultos. O mais velho morava em outra cidade, longe da enchente. O mais novo morava ainda com os pais, pois necessitava de cuidados especiais. Jefferson, era o seu nome. Era um rapaz que não conversava com ninguém, passava a maior parte do tempo no sótão, sentado perto da janela, olhando para as ruas alagadas. Gostava de ficar sozinho e se tornava um tanto agitado, quando alguém entrava em seu espaço. Ainda lembro do susto que tomei quando ele me flagrou lá em cima. Ele tentou bater em mim. Gritava coisas sem sentido, tão alto que seus pais vieram correndo lá do pé do morro, para verem o que estava acontecendo. No final, a bronca sobrou para mim. A culpa, eles diziam, era minha. E eu só queria ver o bairro lá do alto.

Já estava escuro lá fora, quando os meus vizinhos se calaram por um momento, todos queriam ouvir o próximo trovão. Ele veio, logo seguido pelo clarão do raio. A trovoada estava em cima de nós. Talvez fosse minha deixa para me livrar do velho, voltar para minha casa. Porém, antes que eu me levantasse, a luz caiu, nos deixando em trevas, iluminados apenas pela violência dos relâmpagos. No silêncio que estampava o medo de todos, a voz do velho iniciou uma nova narrativa, sobre uma tempestade bem pior e que ele fora testemunha.

Em 84, eu voltei para o sótão daquela casa. Fui quando soube que o Jefferson estava dormindo. Estava começando a ventar e a chover. Da janela do sótão, cuidando para que minha vela não se apagasse, eu vi os raios no horizonte. E senti uma certa paz, por saber que a tempestade estava longe. Em volta da janela, espalhados pelo chão, dezenas de velhos álbuns de fotografias. E então descobri o bizarro passatempo do rapaz. As fotos em preto e branco, de diversas famílias, estavam todas recortadas, sem cabeças ou sem partes dos rostos. Havia uma tesoura sem pontas e um tubo de cola escolar, também no chão, sobre um tapete encardido.

Encardido, disse o velho na minha frente, finalizando sua história, para o meu espanto. Como se contasse para todos a história que se passava apenas em minha mente. Percebi que não estava prestando atenção na história dele, de tão concentrado em minhas lembranças. Na luz de um outro raio, vi seu olhar voltado para mim. Por um momento senti um calafrio. Desviei rapidamente o olhar, como se estivesse dominado por um medo irracional de que o velho pudesse ler meus pensamentos. Seu rosto, entre os clarões dos raios e a movimentação das chamas das velas, parecia disforme, acentuando a malícia de seu sorriso debochado e elevando as sobrancelhas arqueadas como um vitorioso Mefisto, comemorando a alma devorada.

Naquele sótão a luz da vela também balançou, de relance vi as páginas mal escondidas debaixo do tapete. A curiosidade em saber o Jefferson fazia com as fotos me roubou o sono nas noites seguintes e me manteve até o final da enchente o mais longe possível dele. Nas primeiras folhas as colagens pareciam aleatórias. Um olho aqui, uma boca lá, orelhas em outro canto. Nada parecia fazer sentido. Mas havia um padrão que só reconheci nas páginas seguintes. As partes recortadas das fotos ficavam mais próximas e aos poucos as novas colagens traziam a imagem de rostos deformados, criados com partes diversas, recortadas de muitas fotos. O ar grotesco de cada figura, parecendo atrações de um circo de horrores, misturado com o medo da tempestade que se aproximava, me fez largar tudo no chão, com o susto causado por mais um trovão. Ao pegar a vela, para ir embora, de relance, uma folha de colagens se destacou, formava um rosto de um velho, com um sorriso maquiavélico, um olhar composto por pelo menos quatro fotos diferentes, penetrante de sobrancelhas arqueadas, como quem seduz um inocente com sua perversidade. Seja pela imaginação super excitada ou apenas pelo movimento da chama da vela, a montagem parecia viva, como se o velho pudesse ler meus pensamentos. O rosto criado, parecia descrever agora o mesmo velho que me perturbava com suas histórias.

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Na incompreensão de meus pensamentos, no tumulto de sentimentos que giravam em torno de medo e angústia, não reparei quando o velho havia se levantado e ido embora. Sua cadeira estava vazia, com a sombra projetada em direção à rua. Foi o grito, que reconheci na voz de meu filho que me fez levantar, assim como todos os outros vizinhos que ainda estavam na roda de conversas. Corremos todos morro acima, até minha casa.

O velho nunca mais foi visto e meu filho nunca mais falou.