Caronte

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Sem sono, Antenor passou o dia acordado, de pé diante da grande janela de sua sala, vendo o brilho do estático Sol movendo-se nas ondas do mar. Os fragmentos da luz pareciam dançar tranquilamente sobre as águas, desapercebidos na praia vazia, mas isso não trazia paz. Angustiado, o homem só pensava nas próximas horas e no reencontro que elas antecipavam. No horizonte, sobre sua linha, uma pequena mancha escura indicava a aproximação do grande navio, no qual Antenor partiria em dois dias. Nuvens pesadas pareciam seguir a embarcação. Logo o céu estaria cinza, o mais próximo da noite que lhe foi permitido conhecer, até então.

Ele sabia que em poucas horas deveria estar no Porto Central de Pérgamo, junto com sua família para receber o falecido pai. Queria não levar o filho pequeno, acreditando ser ainda muito novo para compreender a cíclica e retrógrada dinâmica do tempo. Lembrou de sua infância, quando o pai retornou pelo filho mais velho e agora voltava para buscar o caçula.

O som de passos o fez olhar para dentro da sala, mas as manchas da luz não seguiram sua vista. Escura, por causa das pesadas cortinas nas demais janelas, a sala ainda lhe permitiu contemplar o sorriso triste de sua jovem esposa. Ela vestia ainda um grande pijama, tinha os cabelos revirados e o olhar ainda sonolento.

– Não conseguiu dormir? – Ela perguntou bocejando.

– E eu dormi alguma vez, desde o acidente? – Ele respondeu triste, aproximando-se dela. A abraçou e deu um frio beijo em sua testa.

A esposa serviu o café para a família. As crianças pareciam ignorar o fato do pai não se alimentar. A menina mais velha provocava o irmão mais novo, fazendo-o rir. O pai os observava e lutava internamente para conter os sentimentos que forçavam as lágrimas para fora. Algumas desceram discretas pelo rosto e foram rapidamente desfeitas com as costas da mão. Apenas a esposa parecia notar, mas ela, por sua vez, já havia chorado demais.

Uma hora depois o cocheiro os deixou no porto, onde uma multidão aguardava o desembarque de seus amigos e familiares. A guarda municipal mantinha a ordem com dezenas de homens fardados e cavaleiros controlando o acesso ao pier. E assim que Caronte abriu suas portas, os mortos começaram a caminhar pelas rampas e a serem recebidos pelos vivos.

Um garoto de boina xadrez cinza e suspensórios pretos sobre uma camisa branca, caminhou em passos duros e sérios na direção de Antenor, que aguardava com a esposa e os dois filhos bem próximos à rampa.

– Lembra-se de mim rapaz? – Disse o garoto removendo a boina, cumprimentando Antenor.

A filha pequena pareceu encantada com a aparência do avô. Já o menino caçula, realmente ainda não compreendia a estranha passagem do tempo nas terras além do Aqueronte. Antenor, ajoelhou-se para abraçar o pai naquele corpo que retrocedia no tempo e sorrindo respondeu:

– Da última vez que vi o senhor, eu era a criança.

 


Wisdom in the echoes
Roses burned in starlight
Reaching for the Knowledge
Returns in soil
Blood in the eyes
Clearing the vision
Violence in a whisper
He’s watching in the night
Shadows bring us
Through the night
The sun is dreaming in the soul