Crônica da Beira Baixa

Jornalista, cronista e blogueiro


Entrou no comboio encharcado pela chuva que há meses não caia em Lisboa. O inverno acabava, mas o frio persistia naquela noite de março. Antes de guardar sua mala, retirou o laptop e buscou vídeos bestas na internet para se distrair.

Enquanto o comboio balançava lentamente em sua viagem interminável, o passageiro duelava internamente entre a insônia e a preguiça. A internet não colaborava, a noite escurecia as belas paisagens e o espresso da tarde impedia que o sono chegasse. O pouco sinal de WiFi era disputado pelo passageiro da frente, a velocidade diminuía, o tédio aumentava.

Foi quando ela chegou. Com tímido sorriso estampado em seu rosto, uma enorme mochila nas costas e um guarda-chuva verde já embalado, ela pediu para tirar a mala que estava no banco. Sim, ela jovem morena sentou ao seu lado e desde então, a viagem ganhou outro percurso.

O fone de ouvido continuou ligado, mas o volume abaixou. Concentrava-se na rua, já escura e nas músicas, mas era impossível não olhar para o lado. Para negar que direcionava seus olhos a ela, fingia ler notícias na internet. Foi quando ela perguntou:

– A internet está a funcionar?

– Um pouco ruim, mas sim – respondeu.

– Obrigada!

Ela aumentou o sorriso, levantou-se e tirou um notebook gigante da mochila. Aquelas máquinas parrudas, usadas por pessoas que usam para jogar ou trabalhar com coisas pesadas. O jovem largou de vez a sua internet passou a concentrar-se na guria que acabara de conhecer. Ficou curioso em saber o que ela faria, se acessaria para ver um filme, ouvir uma música ou assistir a sua rede social favorita. Talvez fosse possível descobrir o nome dela. Talvez fosse possível encontrar um assunto em comum para puxar um papo.

Nada disso! Ela abriu um programa estranho, abriu uma tela preta e começou a digitar uns códigos indecifráveis. Muitos códigos. Ignorou o colega de viagem e passou a se concentrar freneticamente nos códigos que digitava.

O jovem passageiro estranhou no começo, mas logo imaginou que se tratava de uma dessas estudantes de informática ou coisa parecida. Algo que ele, estudante de letras, jamais entenderia. Mas isso pouco importava: sua beleza, seu sorriso eram mais importantes que aquelas letras e aqueles números. Ele aguardava um brecha, um segundo de distração da moça para puxar um assunto. Talvez tentar entender o que ela estava fazendo, talvez não.

Mas quem disse que a moça abriu esta possibilidade? Ela estava tão fixada na tela, que o colega decidiu momentaneamente deixar seus planos de lado. Tentou que concentrar novamente no seu laptop, na sua internet, que agora deixava de funcionar.

Provavelmente estamos passando por um lugar sem sinal, pensou. Mas quando o trem parou em uma estação, o jovem passou a estranhar. O carregador também parou de funcionar. E sua bateria corria risco até chegar em casa.

Sem internet, o tempo passa mais devagar. Sem internet, os jovens perdem a noção do tempo. E cada segundo que passava offline e com a bateria a gastar, a angústia aumentava. E a moça do lado? Continuava concentrada, digitando códigos indecifráveis.

Se levantou para pegar um café na máquina que tinha dentro da carruagem. Sua única moeda de um euro entrou, mas a máquina parou de funcionar antes de apertar a opção do mocaccino. Sem internet, sem carregador, sem café. E a viagem estava na metade.

Voltou para o banco e a sua colega continua na mesma posição. Concentrada com os dedos nas teclas, de forma frenética, sem perceber as pessoas a sua volta. O jovem ficou com medo de falar com ela, interrompe-la, e ser agredido por isso. Desconectado, tentou concentrar-se na rua, na chuva que caia fora.

Entediado e sem café, o sono começava a dar as caras. As pálpebras se fechavam e o stress da viagem ficava para trás quando um barulho forte despertou todos no comboio. E quem acordou pouco viu o que aconteceu, pois as luzes se apagaram.

Um odor forte se espalhava pelo ar. O trem continuava a andar, mas o cheiro, a falta de luz, a chuva forte lá fora, eram ingredientes de algum problema maior com o comboio. Algumas pessoas se levantavam preocupadas, outras mantinham o silêncio. E o jovem começava a relacionar a falta de internet, de energia, o cheiro…tudo em uma conspiração só. E a moça? Continuava frenética na frente do computador.

O jovem percebeu que a situação havia saído da normalidade. Todos os problemas que estavam e poderiam ocorrer o assustavam, mas havia ali uma oportunidade única: avisar a moça que o trem estava com problemas. Ela estava tão concentrada que provavelmente não tinha percebido.

Ele tentou conversar com ela…em vão. Ela ignorou sua voz e sua mão que tentava avisa-la. Ele ficou ainda mais preocupado. O trem poderia parar de funcionar a qualquer hora, estava distante das cidade, ao lado de uma pessoa bem estranha.

O cheiro foi ficando mais forte e barulhos estranhos passaram a fazer parte da viagem. Era como se todos soubessem em logo o trem ia parar. A chuva fora, a falta de energia, tudo se somava para um filme de terror. Enquanto isso, a moça continuava.

O jovem já penava em trocar de lugar quando a moça parou de digitar. Fechou o laptop, colocou ele na mochila como se nada demais estivesse acontecido até aqui. Ignorou os barulhos, o mau cheiro. Olhou para o seu colega e disparou:

– Estou cansada. Vou dormir um pouco. Vai demorar a viagem ainda, não?

A calma da moça deixou o jovem assustado, sem reação. Ela simplesmente ignorou tudo que aconteceu e tirou uma soneca. Se quer percebeu que estava tudo escuro. E para ficar tudo mais confuso, depois que ela dormiu, o cheiro começou a diminuir. Os barulhos pararam e logo a luz voltou, assim como a internet.

Foram duas horas offline e o jovem aproveitou a volta do WiFi para se atualizar.  Olhou a previsão do tempo e procurou alguma notícia de problemas nos trens ou de uma tempestade maior na região por onde passou. Não encontrou nada demais. O clima de terror que passara continuava um mistério, assim como a moça bonita que repousava ao lado.

O destino final estava próximo. O jovem não pensava na hora de chegar em casa. Calculava 30 ou 40 minutos para sair do comboio. Eis que ela acordou novamente. E como se fosse se tivesse um déjà vu, ele viu ela peguntar da internet, pegar o notebook novamente e começar a digitar códigos.

E a internet saiu do ar de novo….