Deportados

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





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“Você sabe porque tenho que partir, não sabe Greg?” Perguntou o pai enquanto se abaixava para abraçar o filho. A criança parecia não ouvir, mantinha os olhos fixos no brinquedo que girava. A mãe, em pé ao lado do marido, com as mãos juntas sobre o coração, suspirava ao inclinar o rosto na direção do menino, com esperança de que o filho compreendesse a pergunta do pai. Foi o abraço seco do homem, acompanhado de um toque frio de sua mão no rosto da criança e de um adeus sussurrado, que fez o menino se virar. E como se ignorasse a tristeza da sala, inocentemente pediu ao pai que partia, “Traz um presente pra mim, quando voltar?”

A criança na minha frente chorava sozinha, a mãe chegou correndo, carregando muitas bolsas de compras. Coisas do Natal, que deixam as pessoas eufóricas e mudam a rotina do Café. A avenida de lojas terminava, sem saída, numa pequena praça na frente do Café 4 Estações. Um velho edifício, com apartamentos nos andares de cima e dezenas de gatos no telhado. Minha casa. A mãe levantou a voz pedindo para a menina parar de chorar e depois perguntou pelo pai, olhando para os lados.

O meu pai nunca voltou. A verdade é que nunca esperei por ele. Minha mãe perguntou, certa vez, se eu sentia sua falta. Respondi que eu sabia de sua ausência. Ela sentia por nós dois e imaginava que o homem havia encontrado outra mulher.

O pai da menina chegou, trazendo um jornal, pediu desculpas e segurou as bolsas para que a mãe pegasse a criança no colo. O choro finalmente cessou. Meus ouvidos já estavam doendo e eu não conseguia pensar direito com tanto barulho. Logo atrás da família, entre as mesas cheias do café, vinha meu colega de trabalho. De passo acelerado, se esquivando das pessoas e cadeiras, ele se aproximou de mim e sussurrou no meu ouvido:

– A viúva saiu! Não tem ninguém em casa! Você quer mesmo fazer isso?

Minha resposta foi pegar o casaco, ficar de pé e ir na direção da porta dos fundos do café. No caminho cumprimentei Camile muito rapidamente, apenas para formalizar o uso da área dos funcionários. A barista era o que eu podia chamar de amiga. Ela perguntava como eu estava cada vez que eu tomava café ali, ou seja, duas vezes por dia, e parecia realmente se importar com a minha resposta. Bem, eu dizia, sempre mentindo, apenas para ser educado e para não perturbá-la com meus problemas. Não querer ser um incômodo talvez seja a minha maior expressão de afeto por alguém.

Saímos do lado oposto do prédio, em um beco florido que dava acesso à rua mais nobre do bairro. No momento não haviam gatos no local, mas também eram comuns por aqui. Num daqueles prédios, do outro lado do beco, residia a viúva Gouveia, suspeita de abrigar um deportado. Iríamos invadir seu apartamento para encontrar evidências. Era ilegal, mas estávamos desesperados. Impedir uma ameaça de contaminação era mais importante do que aguardar a longa burocracia judicial que autorizaria a polícia a invadir o local. Meu parceiro, Edgar, também conhecido como o Vira-Latas, se empolgava com a ideia.

– Quem diria, você quebrando regras! – Ele se divertia apesar de reconhecer que esse não era nosso trabalho no Departamento de Deportação.

A minha mãe chorou por muitos anos quando meu pai foi deportado. Todo ano ela ia até o porto da cidade com esperança de que ele retornasse. No começo, ela me levava junto. Nos arrumávamos como nas manhãs de domingo antes da missa. Eu odiava aquilo. O tumulto, o barulho e a claridade do dia. E seguíamos com a multidão até o cais, mas ao contrário das demais pessoas, nós retornávamos para casa sozinhos. Certa vez ela recebeu uma carta dele e nunca me deixou ler. Depois disso não o esperou mais, casou-se pela segunda vez com um velho relojoeiro, chamado Tomas, que também era viúvo.

Edgar era bom em abrir fechaduras, coisas que ele aprendeu em sua juventude vivendo quase como um marginal. Agora ele tinha um emprego bom e correto, mas ficava facilmente entediado com o serviço no escritório. Entramos sem fazer barulho no grande apartamento da jovem viúva e as primeiras evidências foram encontradas.

– As cortinas. – Sussurrei para Edgar sem apontar para elas. Pesadas e escuras cobriam todas as janelas, serviam para evitar olhares curiosos vindos da rua e também para bloquear a luz do Sol.

Foi um barulho, como um tilintar, que chamou minha atenção. Edgar não ouviu. Saí da sala em direção ao ruído, vinha de um provável quarto. Era um quarto bagunçado de criança, com brinquedos espalhados pelo chão. Estava escuro e eu pisei num deles, uma pequena bola que tilintou, como um pequeno sino. Um brinquedo de animais, de gatos, provavelmente. Não tínhamos visto nenhum bicho na casa. E também nenhum no Café, nem no beco florido.

O meu quarto, durante a infância, era nos fundos da casa, não tinha janelas, era silencioso e longe da rua. Eu sempre dormia muito bem. Ele tinha prateleiras em todas as paredes onde eu guardava os meus brinquedos em categorias de espécie: carrinhos, soldados, navios, maquetes de castelos e outras coisas.

Abri a cortina e deixei que a luz do Sol entrasse. Ela me cegou e tive que pôr novamente meus óculos escuros. Edgar me chamou, sussurrando, mas eu o ouvi perfeitamente. Ele estava na cozinha e havia encontrado um gato siamês morto, com as entranhas expostas. Mais uma evidência. O sangue era recente.

– A viúva saiu sozinha? – Perguntei ao Edgar, ainda fitando as manchas de sangue, procurando por algum padrão.

– Sozinha. – Ele respondeu. – Mas ele pode ter saído depois.

– E a criança? O filho deles? – Perguntei olhando para a boca aberta do colega.

– Daniel. O nome do menino é Daniel. Oito anos. Pode estar com a tia… – Ele não concluiu a frase, pois também ouviu outro ruido, agora vindo da sala.

E de repente, a criança de pijama apareceu na porta. Cabelo revirado e olhos vermelhos. Estava chorando. O olhar não era pra mim, nem para Edgar. A criança olhava a outra porta. Uma despensa? No chão uma gota de sangue ainda vermelha perto da porta. E duas outras menores um pouco antes. O homem havia deixado um rastro do seu café da manhã.

Fui naquela direção e a criança gritou. Correu e se colocou entre mim e a despensa. Edgar a segurou e a puxou para o lado, permitindo que eu abrisse devagar a porta, que deslizou para dentro da parede oca, revelando uma pequena sala com prateleiras cheias de latas e caixas. Encolhido no canto, no chão, um homem com as mãos e boca sujas de sangue. A pele escura e os olhos brancos, vazios de vida, denunciavam o estágio, ainda não avançado, de decomposição. O medo estampado no olhar da criatura não viva, nos dava a certeza de que capturá-la sozinhos não seria difícil.

O garoto se desprendeu de Edgar e correu para abraçar o pai. Lágrimas lhe corriam dos olhos para as bochechas. E numa expressão que misturava raiva com tristeza, eu não sabia ao certo, ele nos desafiou:

– Vocês não vão levar o meu pai!

Talvez fosse essa a reação que minha mãe esperasse de mim quando meu pai partiu. Talvez ela queria que eu demonstrasse meu afeto agarrando-o e tentando impedir que ele fosse embora. Mas eu conhecia as regras.

A viúva então nos surpreendeu na porta da cozinha. Assustada deixou cair uma bolsa no chão, que se abriu e um gato saiu de dentro dela, correndo para longe da mulher. Ela balbuciou algo. Não compreendi. Caiu de joelhos e começou a chorar, cobrindo o rosto com as mãos. Edgar foi até a viúva, ajudá-la a se levantar. Daniel gritava que não poderíamos levar o pai dele embora. O menino não fazia ideia do perigo, não sabia da contaminação, não conhecia as regras.

O meu avô as ensinou quando eu ainda era bem pequeno, numa das vezes em que ele retornou para nos visitar. Só o meu pai nunca voltou. Eu sabia das regras. Sempre decorei tudo que me era ensinado. Não havia porque chorar na partida. Meu pai estava morto também, mas poderia ter nos visitado, se quisesse.