Descarrego

Jornalista, cronista e blogueiro


A chuva caia forte no ponto final. O guarda-chuva não impediu que ele ficasse encharcado. A pasta de trabalho pesava cinco quilos de stress, dívidas e compromissos atrasados. Mais uma semana terminava, como todas as outras.

O caminho do ponto final até a casa era longo. A distância aumentava nos dias de chuva e a ponte sobre o ribeirão parecia cada dia mais frágil. Para manter a rotina, passou na carrocinha de cachorro -quente e pediu um completo sem vinagrete – o preço subiu: agora custava R$ 5,00.

– Pago segunda-feira, pode ser? – disse
– De novo? Estás pendurando demais – respondeu o dono da carrocinha, aceitando a proposta.

Fome resolvida, dívida agravada. O terno, encharcado da chuva, ganhava tons laranja ao atravessar a esquina. A risada do motorista o irritaria há uns anos, mas hoje não. Ele continuou o caminho de casa, como se nada tivesse acontecido.

O celular tocou. Na tela do aparelho, o número do colega de trabalho indicava novos problemas. Decidiu então não atender, mesmo que a música o perturbasse. Quando foi atravessar a ponte, o trabalho voltou a procurá-lo.

A sua pasta tornou-se ainda mais pesada. Parou no meio do passeio, abriu a mala em cima da mureta e deixou a chuva lavar os documentos do serviço. O barulho do telefone voltava a incomodar.

Ele subiu em cima da mureta, abriu os braços, e começou a fitar o ribeirão cheio pelos dias de chuva. Os carros continuavam a passar sobre a ponte, os moradores voltavam para casa após o trabalho e ele deixava o celular tocar, vendo a sua vida inteira passar nas águas. Fechou os olhos e berrou:

– HAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAAHAHAHA

Chutou a pasta do trabalho no ribeirão, desligou a ligação e sentou em cima da mureta. Sentado, começou a cantarolar uma música alegre. Pegou o celular e ligou para ela – convidou-a para se divertir durante a noite.