Desculpas pelo nada

Jornalista, cronista e blogueiro


categoria_cronica_003Pela chuva eu sempre espero. É uma espécie de companheira inseparável, uma amiga incômoda que, às vezes, me fode a vida. Como se fosse alguém de Joinville, eu cheguei na Rodoviária trazendo a chuva do sul da serra. O que mais me incomodava não era a água que caia, e sim o frio que doía os ossos.

Fui até o festival só para te encontrar. Não tinha muito interesse no que acontecia ao redor, apesar de tudo conspirar para mim. Uma visita rápida no museu, um passeio pelo calçadão da XV, um café forte no fim do dia, esse era o meu roteiro de espera. Me preparava psicologicamente para uma noite importante, que alguma coisa precisaria acontecer.

A angústia de três anos estava prestes a acabar. A saudade do seu olhar, do seu sorriso me deixava agoniado. A pressão subia, a ansiedade tomava conta, criando uma exigência que a noite fosse perfeita. Essa obrigação em tudo dar certo, essa cobrança…era o desenho do erro sendo formado.

Brindamos juntos, comemoramos juntos, conversamos em boa parte da noite. Você estava de azul, eu estava de preto, você estava descontraída, eu estava concentrado. Você jogava palavras ao vento, eu formulava teses e poemas em minha cabeça.

Chegou o grande momento da noite. Era a dança, e eu estava frente a frente, com os olhos concentrados, o “gran finale” para um final de semana perfeito, onde tudo foi milimetricamente planejado. Lembro até hoje de colocar a mão em seu rosto, respirar fundo para dizer tudo aquilo que estava engasgado nos últimos três anos.

O que eu disse? Nada! Era como se todo o salão estivesse em silêncio. Não se ouviu nenhuma palavra, nenhuma sílaba, nenhuma intenção. A minha mente esvaziou, as palavras fugiram, as luzes se apagaram. Tudo desmoronou em poucos segundos.

Poderia dizer que faltou coragem depois, mas faltaram as palavras mesmo. Não se planeja aquilo que deve ser espontâneo. Se arrepender do que fez é complicado. Se arrepender daquilo que não fez talvez seja mais difícil ainda. Peço desculpas pelo nada, por ter deixado uma página em branco. Mais valia uma rasura, um borrão. Não há razão para ser racional o tempo todo.