Dinho Matador

Jornalista, cronista e blogueiro


faca-com-sangue[1]O telefone toca. É manhã de sábado e aquele barulho irritante tirou você da cama. Nada pode ser pior para começar um final de semana. A distância entre a sua cama e o telefone é proporcional ao volume do seu saco. E naquele fatídico dia eu estava com o saco muito cheio.

– Alô?

– Alô, o Dinho Matador está aí?

Ser acordado sábado de manhã pelo telefone é horrível. Ser acordado por um trote, então. A situação fica ainda pior. Mil palavrões e ofensas as últimas cinco gerações do troteiro passaram na minha cabeça. Preferi o silêncio e voltei para a cama.

Quarta-feira. É quase meio-dia e estou em casa quando o telefone toca novamente.

– Alô?

– Alô, bom dia! Poderia conversar com o Dinho?

– Dinho?

– Sim! Dinho Matador

– Dinho Matador?

– Não é esse o telefone? Desculpe, moço!

Na primeira vez, tinha certeza que era um trote, mas agora não. Ninguém pede desculpa em um trote. O tal Dinho Matador existe. Mas quem diabos é Dinho Matador? Um assassino de aluguel do bairro? Alguém que já tenha matado alguém e ficou com a fama?

Fiquei com o assunto na cabeça por alguns dias. Esperava por uma nova ligação. Se duas pessoas confundiram o meu telefone com o do Dinho Matador, é provável que isso se repita. E foi o que aconteceu. Mas desta vez, eu precisava saber mais.

– Alô?

– Alô, poderia falar com o Dinho Matador?

– O Dinho…mas quem está falando?

– É o Marcão.

– E sobre o que seria?

– Ele ficou de fazer umas coisas para mim. Ia resolver um problema meu…

Desliguei o telefone na hora. Resolver o problema? Como assim? Eliminar alguém que estava incomodando o Marcão? O tal Dinho é um assassino mesmo? E as pessoas ligam assim, na boa, chamando ele de Matador? Santo Dio!

Era hora de tomar uma atitude. Não podia fingir que não sabia de nada. Tem um matador na região e as pessoas ligam para contratar os serviços dele. Eu precisava armar uma tocaia, provar que existia um assassino por ali.

– Alô?

– Alô, poderia falar com o Dinho Matador?

– Ele não pode atender agora. Mas eu sou assistente dele, podes me dizer sobre o que seria?

– Ele ainda não entregou um pedido meu.

– Ele disse alguma coisa a respeito?

– Falou que ia demorar, porque teria que fazer uma limpeza antes e tal. Tinha sujado tudo de sangue…

BINGO! O cliente falou dos serviços do matador. Agora eu pego essa gente.

– Muito sangue é…sim, o Dinho comentou isso comigo. Mas acho que o serviço já foi pronto.

– Que ótimo. Vão entregar o pedido?

– Você vai querer receber em casa?

– Sim, eu compro 20 quilos de carne bovina para que?

Desliguei o telefone. Fui perguntar para outras pessoas e descobri que o açougueiro Dinho tem um telefone quase igual ao meu. As ligações por engano iriam continuar. Pessoas sedentas por carne ligando para a pessoa errada. Só me restava a zoeira.

– Alô?

– Poderia falar com o Dinho Matador?

– Ele não está agora, mas posso anotar o pedido. Vais querer matar quem?