Em busca de Aquilo

Jornalista, cronista e blogueiro


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Eu trai o movimento livreiro. Comprei um kindle e confesso: estou preferindo a tela do gadget que as folhas impressas, até porque os ônibus da Verde Vale viraram meu local de leitura. O dia em que eu me peguei lendo no kindle uma obra que eu já tinha na estante, parei para refletir sobre o hábito de colecionar livros…e voltei até 1990, o dia em que conheci Aquilo.

Eu tinha seis anos e estava entrando na Pré-Escola do Colégio Estadual Luiz Delfino, um dos maiores de Blumenau na época. Fui para o pré sabendo ler e escrever, possivelmente o único da turma, pois fui alfabetizado em casa com cinco anos. O Colégio mandava os pais dos alunos comprarem um livro no começo de cada ano, que mesmo pertencendo ao estudante, ficava na sala de aula. Meu irmão, da sexta série, havia ganho a obra “O Peixe que podia cantar”, do Ricardo Azevedo. A escolha do meu livro veio junto: “Aquilo”, também do Azevedo.

Aquilo era um conto do Azevedo pertencente a obra “Se eu fosse aquilo”. Não sei por que fizeram uma edição separada daquele conto, mas lembro que o texto era quase um poema, com uma frase em cada página, com uma grande ilustração em cima. O peixe que podia cantar e O Homem no sótão eram as obras mais famosas do escritor.

Fui saber mais tarde que a escola incentivava a comprar livros do Azevedo. Por que? Porque o autor faria uma visita no colégio, que queria fazer um agrado ao escritor.  Eu era apenas um recém alfabetizado, com dificuldades em entender o que estava escrito, mas tinha orgulho de ter “aquilo” na sala de aula.

No dia da visita do autor, os alunos da sexta, da sétima série, foram todos acompanhar a palestra do escritor e depois fazer uma fila para ganhar o autógrafo. Todos com livros “novinho em folha”, daqueles comprados apenas para ser autografado, sem uso.

Eis que a coordenação da escola soube de um aluno do pré que também tinha um livro do autor e queria um autógrafo. Conversaram com a professora e me levaram na frente do palco. Sempre fui relaxado e destruidor, cheguei com o livro desgastado, acabado. Ganhei o autógrafo e sai de lá feliz sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo.

No ano seguinte, veio a greve e eu fui para a Adelaide Starke, escola municipal. Flertei com a matemática, me apaixonei pela educação artística, mas gostava mesmo de história. Somente na oitava série liguei os pontos e associei teatro, livros e história. Só no final do primeiro grau eu redescobri a paixão pela literatura.

Luís Fernando Veríssimo, George Orwell, Gabriel Garcia Márquez, José Saramago, Mário Vargas Llosa, eles foram preenchendo minha estante e não tenho mais Aquilo. O kindle é um aparelho excelente para a leitura, mas jamais ocupará o lugar das bibliotecas.

Se alguém souber de algum exemplar de Aquilo me avisem: eu ainda quero comprar.

Mas o que é Aquilo?

Aquilo é um conto infantil com uma incrível crítica sobre a sociedade, sua ética e seus preconceitos. Uma história infantil, mas com uma mensagem que condiz com a minha ideologia, com minha forma de ver o mundo hoje. Há 25 anos eu não poderia imaginar, mas Aquilo era a obra certa para ser o meu primeiro livro.

Quando aquilo apareceu na cidade, teve gente que levou um susto.
Teve gente que caiu na risada.
Teve gente que tremeu de medo.
E gente que achou uma delícia.
E gente arrancando os cabelos.
E gente soltando rojões.
E gente mordendo a língua, perdendo o sono, gritando viva, roendo as unhas, batendo palma, ficando apavorada e ainda, gente ficando muito, muito, muito feliz.
Uns tinham certeza de que aquilo não podia ser de jeito nenhum.
Outros também tinham certeza. Disseram: ─Viva! Que bom! Até que enfim!
Muitos ficaram preocupados. Exigiram que aquilo fosse proibido. Garantiram que aquilo era impossível. Que aquilo era errado. Que aquilo podia ser muito perigoso.
Outros tranquilo,festejaram deram risada, comemoraram e, abraçados, saíram pelas ruas, cantando e dançando felizes da vida.
Alguns, inconformados, resolveram perseguir aquilo. Disseram que aquilo não valia nada. Disseram que era preciso acabar logo com aquilo ou, pelo menos, pegar e mandar aquilo para bem longe.
Muito defenderam e elogiaram aquilo. Juraram que aquilo era bom. Que aquilo ia ser melhor para todos. Que esperavam aquilo faz tempo. Que aquilo era importante, bonito e precioso.
Alguém decidiu acabar com aquilo de qualquer jeito.
Mas outro alguém disse não! E foi correndo esconder aquilo devagarinho no fundo do coração.