Existência

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Não sou senhor de meu corpo. Ele apenas responde às minhas emoções. Essas, por sua vez, não respondem mais aos meus pensamentos, que também já me abandonaram. O que resta agora de meu Eu trata-se de um nada, preso dentro de uma casca de matéria, sentimentos e ideias, que me são estranhos. O ser que me olha de volta no reflexo de um espelho é um usurpador de minha existência.

O vejo raspando os cabelos e deixando a barba por fazer. Depois ele rasga as mangas da camiseta para exibir as tatuagens que eu nunca faria. Aqueles símbolos nada me dizem. O sigo por dentro, o acompanhando pela rua até um bar. Ele bebe muito mais do que eu jamais imaginei que um dia eu fosse capaz de beber. Bebe sozinho. Ninguém o cumprimenta. Ninguém o conhece. Ele usa meus antigos olhos para não olhar nos olhos de ninguém. Ignora a todos.

Uma garota beija meu rosto. Sorri. Eu nada sinto. Nem o usurpador parece se importar. Mas ele retribui, a agarra e a beija de verdade, apenas pela excitação. Alguns minutos depois ela nos leva embora. Vamos para o apartamento dela. Nos despimos como se a nudez alimentasse nossa fome de um longo jejum. Havia saudade no ar, apesar da falta amor dentro deste coração que não mais me pertence. Ele a penetrou de forma bruta, ela parecia não se importar. Seus gritos acordaram os vizinhos. Esses sim, se importavam.

A polícia chegou trinta minutos depois. Na cama, como num coma, o usurpador já estava apagado. A vi se levantando para atender os policiais na porta. Ela os convenceu que nada de mal havia acontecido ali. Voltou, mas não para a cama. Foi até o banheiro, e ficou olhando para o espelho.

Então eu compreendi que ali também habitava um ser que não se reconhecia. Seu olhar de desprezo para si mesma e para meu corpo nu sobre a cama, eram a confirmação de um arrependimento. Dentro dela eu podia ouvir sua verdadeira voz lamentando “o que estamos fazendo?”

Subitamente, meu corpo correspondeu ao meu comando. Meu pensamento alinhou-se com a essência de meu verdadeiro ser. Havia ali também uma parcela de um sentimento que nascia de uma fonte desconhecida. E entre o hálito de cerveja misturado com o gosto do suor das pernas dela, minha língua e meus lábios, sopraram uma centelha da Verdade. Sim essa com “v” maiúsculo, pois nascia também da fonte, da essência de todas as essências. E respondi à ela, com outra pergunta:

– Onde foi que nos perdemos?