Fim

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Pensei em começar dando uma dica do final. Escreveria algo sem muito sentido, mas que surpreendesse o leitor ao chegar à última linha. Acabei desistindo por falta de um meio. A verdade era que eu não tinha nem um começo.

Fiquei lá, apenas olhando para a tela em branco do computador, fazendo dos meus indicadores duas baquetas enquanto fingia que a mesa era uma bateria. Moby Dick do Led Zeppelin sempre fazia isso comigo. Eu entrava num transe, esquecia meus deveres e machucava meus dedos. Foi só quando a música acabou que percebi que ela me atrapalhava.

Desliguei o Winamp e me incomodei com o silêncio da casa. Sábado de noite, sozinho e solteiro. Apenas uma sombra me fazia companhia enquanto ia até a cozinha procurar algo para beliscar. Enchendo um copo de café, lembrei dos amigos que estavam em algum bar, bebendo e falando sobre diversos assuntos, principalmente sobre mulheres. Sem dúvida um ambiente muito mais inspirador. Mas não naquela noite. Não para mim. Minha inspiração deveria vir de uma musa específica.

E mais uma vez, ao ficar divagando, minha mente me levava até ela, a musa. O motivo por eu ter escolhido aquela música, a ideia era justamente me distrair. E o bar deixou de ser opção. Havia o dever. Eu precisava digitar algo. Parecia óbvio, escrever sobre ela, mas já havia feito isso tantas vezes que eu nem sabia mais como ser original.

De volta ao computador, o busto de Platão, religiosamente colocado no centro da estante de livros, me lembrava que tudo que eu tinha da musa era uma idealização e ao mesmo tempo ela era a sombra que me fazia companhia em minha caverna, lembrando, por sua vez, que nossa história era apenas um final. Na verdade, nunca teve um meio, pois eu nunca soube como começar.