Funeral

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Mesmo agora, a Vida parecia ejacular na face serena de Josué. Pareceria, se ele não tivesse montado o espetáculo com antecedência. Josué que arrastou sua sina clamando mudamente para as paredes de pessoas cegas o quanto gostaria de ser o baricentro do universo à sua volta, ironicamente apenas quando morto, confinado em sua última morada, conseguiu se ver cercado de gente.

O velório de Josué reproduzia fielmente os seus dias quando vivo. Parado, silencioso, triste e um tanto vazio. Preenchido apenas por cascas vazias, cujas mentes empoleiravam-se na mesquinharia rotineira e ignoravam o fardo letárgico do defunto, que assistia a cena como quem vê com ansiedade uma pintura mal restaurada.

Sabia, Josué, que havia algo mais. Havia, ao mesmo tempo em que lhes faltava, um sentido maior e revelador. A resposta para a pergunta que nunca foi feita – Por quê? O conformismo silencioso das cascas apenas reforçava a certeza de que ninguém se interessava em saber o motivo, uma certeza profética de que o suicídio de Josué era inevitável. Assim como eram inevitáveis as lágrimas sangradas diariamente, como uma chuva na janela, que Josué exibia como um náufrago disparando um sinalizador em busca de socorro.

Um pedido ignorado, acrescentando peso à causa e peso ao corpo, que como um pêndulo de um relógio catatônico ficou ali no meio da sala, esquecido como um evento banal. Olhos semicerrados fitariam, se estivessem vivos, uma janela com vista para uma rua mergulhada na luz matinal com a falsa promessa de um dia melhor.

Na soleira da janela, mais esquecidas do que o próprio Josué, suas últimas palavras repousavam empoeiradas numa carta, velada pela ausência de leitores, ignorada como o autor, mas que dizia:

“Existi. Por um breve momento, eu existi. Por mais que todos vocês possam negar, eu existi. Mesmo que jamais se prove, ou mesmo que jamais se busquem provas, eu passei por aqui. Passei e deixei minha marca. Uma pequena marca. Não visível por todos, porque é uma marca especial demais. Ela tocaria apenas uma minoria quase tão insignificante, que talvez nunca venha a ser tocada.

Mas apesar disto, deixarei para todos os demais uma grande marca, visível até os céus, que tocará muitos, com a minha forma de gratidão. Gratidão a todos vocês que me ensinaram muito sobre desprezo e indiferença.

Mas você que leu esta carta, antes do meu velório, saiba que você foi tocado pela pequena marca e por isso eu lhe imploro, não vá, por favor, ao meu enterro.”

Assim terminava a carta, cujo destino era alertar a única pessoa que Josué se importava, e que para o descanso eterno de sua consciência, felizmente ela também se importava com ele, poupando-lhe assim a vida que por pouco não lhe fora roubada cinematograficamente durante a terrível explosão na capela mortuária em que Josué, o suicida, deixava sua marca, gozando sua vingança no além.

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