Herança

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Talvez fosse apenas o frio, esse vento gelado tocando-lhe o rosto descoberto, como uma lâmina muito fina, desenhando linhas de sangue em suas bochechas. Talvez. As mãos de Anderson tremiam dentro dos bolsos do casaco pesado, que ainda cheirava a mofo. Era a noite mais fria do inverno mais frio da década e Anderson precisava esperar lá fora, na rua, escondido entre as árvores do terreno baldio, na esquina em frente ao velho portão da casa de seus avós. Ele sabia que não era apenas o frio que lhe atormentava, havia também o medo. Sentimento nefasto que lhe torturou durante todos os seus trinta anos. Escondida no bolso, a arma de fogo, ironicamente gelada, tremia também em suas mãos. O revólver, herdado do falecido pai, ainda tinha poeira em suas frestas. Em seus pensamentos, Anderson dizia a si mesmo, como quem busca alguma razão, que era apenas o frio que o incomodava. Mas a mentira não o acalmava. Sabia que este fora seu último dia e esta seria sua última noite. O velho padre, naquela tarde, havia lhe dado o perdão em nome de Deus. Era pouco. Anderson precisava de ajuda ainda nesta vida. Foi o padre que o lembrou da arma. A criatura retornaria nesta noite, para cumprir a promessa. Anderson temia por sua família, ao mesmo tempo em que a culpa o devorava por dentro. Na casa, aquecidos, esposa, filhos e a avó dormiam tranquilos. A arma, disse o padre em tom de luto, foi usada por seu pai quando a criatura veio atrás dele há trinta anos. Anderson sabia da história. História que seu filho herdaria. Quando a sombra de um bode se projetou na estrada de barro com a luz da Lua, sem que houvesse animal algum na rua, Anderson soube que a hora chegou. Diferente do pai, caminhou mata a dentro, sabendo que a sombra o seguiria. E foi na margem do rio que parou e tremendo de pavor, se voltou para a criatura. Lágrimas frias lhe doíam os olhos, porém mais gélida era a boca do cano da arma beijando-lhe a têmpora. A criatura sorriu. Anderson não sabia como, mas ela sorria. Um sorriso sem corpo. Ele pensou no pai, encontrado morto com a arma na mão. A lembrança de trinta anos. A herança maldita para o filho pequeno. Então, jogou a arma no rio, que se perdeu na escuridão, nas pedras e na força barulhenta das águas. O sorriso se desmanchou. Havia ódio no ar frio da madrugada. Ódio em toda parte. A maldição estava quase quebrada, faltando apenas o abraço gélido e turbulento do rio e o último suspiro de Anderson.