Introdução às Cartas de Amor

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





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Quando foi a última vez que você recebeu uma carta de amor?

Mensagens digitais não contam.

Eu digo dessas escritas à mão, com pelo menos duas ou três folhas. Que levam tempo para serem escritas, pois precisam ser pensadas e repensadas. Dessas que fazem o autor parar de escrever a cada instante para relembrar momentos felizes e trazer à tona sonhos bobos, que o fazem sorrir um pouco envergonhado, como quem pensa “como posso ser tão inocente?”

Cartas que são rascunhadas primeiramente, pois em algum momento o autor teme ser muito cafona em suas declarações, mas algumas delas sempre escapam, e você se vê lendo algum clichê meloso, que a faz rir.

Falo sobre cartas que no fundo descrevem mais o autor do que seus afetos. Revelam seu ser, sua intimidade, coisas que provavelmente ele não demonstraria pessoalmente. Mas o amor se manifesta justamente nesta exposição, nessa abertura, como quem pede “me veja como sou” ou como quem diz “você é muito bem vinda em minha vida”.

Talvez você tenha recebido algumas assim, quando criança ou quando adolescente. Numa época em que amor e desejo se confundiam numa mistura boa. Uma época em que amor era pensado como verbo e não substantivo. Não era objeto de discurso, mas ação prática tendo por finalidade apenas a felicidade.

Acho, pelo que vejo no mundo, que dificilmente você receberia cartas assim de alguém com quarenta anos.

Mas eu, autor destas que você recebe agora nesta velha caixa de sapatos, sabia que em algum momento deveria deixar por escrito o que eu gostaria de dizê-la pessoalmente. E são muitas coisas, às vezes um tanto repetitivas, o que só evidenciam a sua importância. Porém há uma linha de pensamento, muito forte, que se observa em todo o conjunto de meus textos, e diz respeito à criação de sentido para a vida. Nela eu deixo claro que de todos os sentidos que inventei para darem sentido à minha vida, amar você, assim como eu amei, foi o mais irracional. E talvez por isso mesmo, a coisa mais bonita que já fiz por mim. Se há algo de belo na história da minha vida, com certeza trata-se dos capítulos em que você aparece, pois você surgiu como uma secreta prece atendida. Alimentou minha crença nas coisas que eu desconheço. E me fez acreditar novamente na alegria de torcer por algo bom, mesmo sem nunca ter recebido em vida uma carta assim.