Mudanças de Planos

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Embarcação viking aproximando-se da costa inglesa. Os homens largam os remos e deixam-se guiar pela força das ondas. Agarram seus escudos e espadas, esperando ansiosamente pelo desembarque na praia. Na ponta do drakkar, o líder esbraveja o discurso motivacional:

– Atenção homens! Quando desembarcamos naquela vila, vamos saquear todos os seus tesouros!

A tripulação grita uníssona em aprovação, batendo com as espadas nos escudos. O líder prossegue:

– Roubaremos seus tesouros e incendiaremos suas casas!

Mais uma vez a tripulação berra em comemoração e aprovação. O barulho é ensurdecedor. O líder prossegue:

– Vamos matar todas as suas mulheres e violar todos os homens!

Desta vez a gritaria é interrompida antes mesmo de começar. Deixando muitos com a boca aberta mas sem emitirem nenhum som. E os braços com as espadas pararam no ar antes de se chocarem com os escudos. Apenas Baldur, o lerdo, intelectualmente falando, gritou praticamente sozinho, por um breve momento. Helgar, o intrépido, resolve questionar o líder.

– Senhor? Não seria o contrário? Matar os homens e violar as mulheres?

– Helgar, meu caro! – Responde o líder – Nós não fizemos isso das outras vezes? Quantas vezes, sempre a mesma coisa? – Ele então muda o tom de voz, voltando mais uma vez para o discurso motivacional – Vocês não acham que está na hora de fazermos algo novo? Algo diferente? Hora de termos novas experiências?

Apenas Baldur, o lerdo, inicia o empolgante grito em concordância, mas logo desiste ao perceber os murmúrios de dúvidas de seus colegas. Helgar, o intrépido, assume novamente o papel de porta voz dos descontentes com o novo plano.

– Mas senhor, quando partimos tínhamos em mente o outro plano, o mais tradicional… Assim, ninguém foi consultado antes dessa mudança… Ninguém se preparou psicologicamente pra isso…

O líder então frustrado, muda o tom do discurso:

– Ok! Ok! Ninguém é obrigado a fazer o que não quer. Mas tem gente aí no meio que me pediu isso e agora tá com vergonha. Não é homem pra assumir! Então vamos fazer assim, cada um faz o que quer, do jeito que quer, mas ninguém vai ficar zoando da cara dele depois. Concordam?

Todos concordam de forma tímida, entreolhando-se, ainda com uma certa dúvida no ar. Menos Baldur, que gritou um “sim” com muita energia, batendo o escudo na espada.

Corte para o retorno à praia, onde os vikings cobertos de sangue carregam baús de moedas de ouro. Ao fundo é possível ver as chamas da aldeia incendiada. O líder traz consigo um escravo inglês amarrado e pergunta a outro viking:

– Onde está Baldur?

Nisso, todos veem o lerdo gritando e correndo para o mar com as genitálias em chamas.