O Algoritmo

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





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Depois do enterro de minha avó nos encontramos todos na casa dos meus pais. Estavam lá primos, tios, meus irmãos, meus sobrinhos, quase toda a família reunida. Como era um tanto raro todos esses parentes se encontrarem, foi natural que quisessem permanecer mais um tempo juntos. Aliás, parecia que era preciso alguém morrer na família para que se reencontrassem os amigos de infância. O tempo juntos no velório não foi suficiente para que todos colocassem as conversas em dia. Tirando a triste perda de nossa matriarca, a notícia que circulava era até feliz. O nascimento de meu primeiro filho. E como bem lembrou um primo meu, o último bisneto que nossa vovozinha chegou a conhecer.

Alguns meses antes da doença da Dona Odete piorar, cheguei a tirar uma foto com o pequeno João no colo dela. A foto foi feita na varanda do velho sítio dos meus avós, ela na cadeira de balanço, que pertenceu ao meu avô, com o João no colo dela, fazendo cara feia, prestes a chorar e com os braços esticados pedindo o colo da mãe. Essa foto era, na verdade, uma tentativa de fazer uma releitura de uma foto minha. Quando eu era um bebê, meus pais também tiraram uma foto minha no colo de minha bisavó. Ali no mesmo sítio, na mesma varanda, só a cadeira era outra e eu não estava chorando. Pelo contrário, meu olhar na foto parecia bastante sério, encarando o fotógrafo, que não lembro quem foi. Não era meu pai, nem minha mãe, pois eles apareciam na foto, no fundo. Talvez fora um tio. Não sei. Não lembro. Mas isso não importa. A minha intenção em reproduzir a foto do meu passado com a foto do meu filho, era postá-las lado a lado no Facebook. Quem sabe começar uma tradição. Meu filho poderia fazer o mesmo com o meu neto, um dia. Porém, acabei não postando.

Mas ali, na casa de meus pais, depois do enterro e na presença de toda a família, me pareceu um bom momento para postar a foto do meu filho com a Dona Odete. Fui até o carro pegar meu notebook e de volta na sala, a surpresa com sabor nostálgico em ver que a máquina conectou-se sozinha à internet dos meus pais. A senha ainda era a mesma de quando eu morava ali, há um pouco mais de um ano. Enquanto eu procurava pela foto em meus arquivos, uma sobrinha curiosa parou ao meu lado e começou a perguntar quem eram aqueles que apareciam em algumas fotos. Respondi que eram colegas do trabalho, outros programadores lá da firma. A menina logo perdeu o interesse e foi embora. Quando finalmente achei a foto do Joãozinho com a Dona Odete, no meio daquela bagunça de arquivos, percebi que estava sozinho na sala. Todos estavam em outras partes da casa, eu podia ouvi-los mesmo sem entender o que diziam. Falavam baixo. Em algum momento ouvi minha esposa dizendo que o João dormia na minha antiga cama.

Fiz a postagem, só com a foto dele no colo da bisa. Fiquei olhando por alguns segundos, vendo a carinha de choro do João e o sorriso compreensível da Dona Odete, mas logo uma Curtida apareceu. Era de um dos meus colegas da firma. Quando cliquei a foto abriu novamente, maior, preenchendo quase toda a tela do notebook. No canto inferior direito sob o título de Páginas Sugeridas, uma foto distorcida me chamou a atenção.

O nome da página me pareceu impronunciável, como aquelas enormes palavras em alemão. Mas foi a foto que me causou um certo desconforto. Ela parecia feita de recortes, porém mal distribuídas durante a colagem, deixando um aspecto disforme, como o de uma pessoa seriamente deformada por alguma doença. Os olhos pareciam escorrer sobre as maçãs do rosto, deixando duas cavidades escuras e vazias. O nariz pendia para um dos lados, apontado para baixo, como se fosse feito de cera derretida, pingando sobre uma boca sem lábios com os dentes à mostra e com as gengivas enegrecidas. O aspecto cadavérico da imagem, talvez somado com os pensamentos que tive durante o enterro, resultaram numa curiosidade mórbida que me levou a clicar no link. Do que se tratava aquela página?

Eu nunca gostei de enterros. Achava que crematórios eram mais respeitosos aos mortos do que deixar seus corpos apodrecendo dentro de um buraco, sendo lentamente devorados por vermes. Depois que eu soube da notícia da morte de minha avó, tentei convencer minha mãe de não enterrar o corpo da Dona Odete. Vamos cremá-la, eu disse à ela. Mas minha mãe sempre foi uma mulher muito religiosa e me respondeu citando a Bíblia, sobre a ressurreição dos mortos no dia do Juízo Final. Mas infelizmente, a imagem que eu tinha estampada em minha consciência era o do simpático rosto da minha avô sendo comido por milhões de larvas. Era algo horrível para se pensar de uma pessoa tão querida.

A página sugerida pelo Facebook se revelou ainda mais estranha. Eu não sabia que idioma era aquele e o link para a ação de tradução automática não estava trazendo nenhum resultado. Comecei a rolar o Feed de Notícias para baixo, vendo rapidamente suas imagens nas publicações. O que eu via parecia desafiar minha capacidade de compreensão. Não havia lógica naquelas composições grotescas, feitas com recortes antigos. Todas com temas macabros e surreais, que me faziam lembrar o tempo todo da minha própria vergonha dos meus pensamentos durante o enterro. Como se a página, dotada de algum juízo perverso, estivesse ali apenas para me condenar. Eu tremia e começava a suar frio. Pensei que estava desmaiando. Eu queria parar de olhar, fechar o notebook e nunca mais abri-lo. Até que de repente, meu dedo sobre a roda do mouse parou de se mexer, como se estivesse acordando de um transe.

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A postagem que ficou estática no meio da tela, trazia mais uma daquelas composições feitas com recortes de fotos antigas, porem esta era colorida e a imagem me era profundamente familiar. De alguma forma, o doente por de trás dessa página, em sua loucura, respondeu a minha dúvida quanto ao fotógrafo para quem eu olhava quando bebê. A resposta estava na colagem do olhar, usada para representar o meu próprio. Como um reflexo sombrio, adormecido dentro de minha alma, me fazendo chorar diante do notebook, assim como meu filho chorou diante de mim quando eu o fotografei na mesma condição.

Foi a voz de minha esposa que me trouxe de volta. Um clique rápido sobre meu nome, e o meu perfil foi carregado, deixando para trás aquela visão horrível. Quando ela entrou, me viu chorando. Me levantei e fui até a janela, para disfarçar meu medo. Eu ainda tremia e deveria estar muito pálido. Ela provavelmente pensou que eu chorava pela minha avó, mas sentou-se no meu lugar e viu a foto de nosso filho. Comovida, clicou sobre ela, para expandi-la. Contou os Likes e leu um comentário para mim. Então, viu a mesma sugestão no canto inferior direito. O que é isso? Ela perguntou com espanto.

Todos na casa ouviram meu grito, mas já era tarde. Ela também estava sendo julgada.