O apartamento 301

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





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Na rua o carro de som anunciava, logo cedo, as ofertas do açougue do bairro para aquele final de semana. Dentro do prédio a polícia, assistida por vizinhos, arrombava a porta do apartamento 301 para então se deparar com sangue e órgãos espalhados pelo chão.

Na noite passada Alberto chegou em casa com alguns minutos de atraso, havia perdido o primeiro ônibus. Ele culpava o novo estagiário do departamento e seus constantes erros que precisavam ser corrigidos pela única pessoa responsável e competente de toda a equipe de contabilidade. Mas essa era uma preocupação que Alberto nunca mais teria.

Após expor o café da manhã no chão do corredor,  um dos policiais precisou ainda suportar os gritos enlouquecidos de um dos vizinhos do apartamento 301. Foram eles! Ele gritava. Eles sabem tudo sobre nós. Seu cão ao ver o dono naquele estado, sendo imobilizado por outros policiais, ignorou o cheiro do vômito no chão e começou a latir para os homens da lei.

Em casa, ainda na noite passada, Alberto esforçava-se para conter a raiva. Seus dedos longos e esqueléticos cravavam as unhas na mesa de sua oficina. Seu grito de frustração precisava ser abafado. As regras do prédio eram rígidas e as multas severas. Para Alberto eram lindas e ele as respeitava mais do que qualquer ser vivo.

Ao ver a confusão no corredor, alguns vizinhos retornaram para seus apartamentos, menos um casal de idosos que pareciam bastantes preocupados com o moço do 301. Ele era tão bom, não incomodava ninguém.  Dizia a senhora para o policial que algemava o maluco, já prevendo a tragédia.

Alberto, lutando contra a raiva interior,  buscou refugio na sua arte. Centenas de olhos de vidro o contemplavam, frios e indiferentes. Um reflexo do criador. Pombos, ratos, cães e gatos empalhados e empilhados nas estantes do pequeno quarto de taxidermia. O silêncio da total falta de vida lhe dava uma sensação de paz, que não durou muito, pois naquela noite um dos pares de olhos se moveu.

A policia encontrou o corpo aberto no chão sem muitos dos órgãos internos. Deitado sobre uma poça de sangue, o homem parecia ter enfrentado uma besta selvagem. Os olhos de vidro dos animais mortos testemunharam a tragédia de seu criador. Os policiais não manifestaram suas hipóteses para não parecerem malucos como o vizinho algemado.

Merlim! Gritou a senhora reconhecendo o seu gato que saia de baixo da mesa do taxidermista e evitando pisar no sangue correu para o colo da dona horrorizada com a cena. Um policial, então a acompanhou para fora do 301. Ele não contou para ninguém,  mas até hoje ele acredita que viu o gato piscando para o cachorro do vizinho maluco.

 


Esse conto também foi produzido numa oficina de escrita do SESC de Blumenau. O objetivo era misturar o personagem que eu criei, o Alberto no caso, com algum personagem de outro aluno. No caso eu usei o gato Merlim, que era um felino com vontade de acabar com a humanidade e que tinha como amigo um cachorro que o ensinava a usar o Google!