O Circo

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Meu pai disse, em seu leito de morte, que vemos a nossa vida passar diante de nossos olhos quando estamos morrendo. Ele foi um homem sábio. Quando eu era pequeno, ele contava histórias de monstros todas as noites. Não para me assustar, mas para me educar. Para que eu nunca me tornasse um.

O médico chegou mais rápido do que esperávamos. O que deixou todos contentes, já que da última vez que precisávamos de um médico, o povo da cidade mandou um veterinário. O circo sempre causou essa impressão nas pessoas. Bárbara, minha colega de trabalho, sangrava na barraca do gerente do circo. Atacada por um assaltante que a confundiu comigo. Talvez por causa da barba. Apesar das figuras pitorescas que estavam na barraca, foi para mim o olhar assustado do médico quando entrou. Como se com toda a sua ciência, ele soubesse de minha monstruosidade.

Meu pai me tirou da escola muito cedo. Eu precisava trabalhar para ajudar a família. Era normal. Muitos garotos saiam cedo das escolas para viverem como adultos. Eu não fui o único.

“Ela precisa ir para clínica, urgente.” – Disse o doutor, evitando me olhar, preferindo encarar o homem com o rosto coberto de pêlos, que se apresentava como o Lobisomem. Até eu poderia deduzir que ela precisava ir urgentemente para clínica. Não precisava de um diploma para me dizer isso. Naquela hora não tive certeza, mas me pareceu que o médico tremia. Não por medo dos seres bizarros que se aglomeravam curiosamente na entrada da barraca. Tremia de medo ao ver o ferimento de Bárbara.

Ninguém nunca soube de minha monstruosidade. Ainda garoto eu brincava colocando alfinetes debaixo das unhas, depois foram pequenos pregos. Eu nunca senti dor. Mas foi como operário que arrumei esse emprego no circo, entre esses seres grotescos. Eu não queria ser como eles. Quando ganhei a confiança do gerente do circo ele me incumbiu de guardar toda noite o dinheiro arrecadado nas apresentações. Então foi fácil planejar o roubo. Eu só precisava ser a vítima.

Gritos lá fora, na escuridão, chamaram a atenção do pessoal que esperava na frente da barraca. Fomos todos conferir e vi um rapaz sendo arrastado por um homem com escamas na pele. Um garoto sem os dedos das mãos e dos pés, que o acompanhava arrastando-se no chão, vinha gritando – “Pegamos o ladrão! Pegamos o ladrão!” O idiota do meu parceiro não conseguiu se esconder.

Fiz o que pude para não me tornar um monstro. Mesmo longe dos estudos, procurei me tornar uma pessoa instruída, culta. Com meu mísero salário, juntava uns trocos todo mês para comprar livros nos sebos das cidades onde o circo passava.

Ninguém percebeu o médico saindo de mansinho da barraca, indo em direção ao seu carro. Bárbara, ainda sangrando, observava meu comparsa ser esmurrado no estômago pelo musculoso anão. Enquanto os gêmeos siameses traziam a espingarda para o gerente do circo. Mas foi o olhar do médico para mim que me fez segui-lo. Uma sensação estranha. Como se o covarde estivesse nos tapeando. Ele entrou no carro, sabendo que eu o seguia, mas ainda assim ele evitava me olhar. Meu pai dizia que um patife sempre reconhece outro. E meu pai era sábio.

O plano era simples. Eu ia para a barraca com o dinheiro e o assaltante daria uma paulada na minha cabeça, fugindo com toda a grana da noite. Que na verdade ele esconderia na minha barraca dentro das páginas de meus livros. Machucado, ninguém desconfiaria de mim. Infelizmente, nessa noite, o gerente pediu para Bárbara fazer meu serviço. Minha amiga sofreu por minha causa.

Quando eu ia perguntar pro médico, o porquê dele estar nos deixando, sem antes ajudar Bárbara. Os gritos das aberrações lá na frente da barraca ficaram diferentes. Estavam ficando mais altos. Nos olhos do médico vi o horror que as atrações do circo sempre causam. Me virei e vi a multidão enfurecida vindo na nossa direção. Nas mãos do Lobisomem estava meu livro A Metamorfose, de onde se via cair diversas notas de vinte e cinqüenta. Meu comparsa abriu o bico.

Robert, meu amigo de infância, queria ser rico, importante e que todos os respeitassem. Depois que saí da escola nunca mais o vi.

O médico viu meu sangue respingar no banco de seu carro quando eu estava entrando. O gerente me acertou pelas costas. Nem doeu. Bárbara chorava inconformada enquanto o carro levantava poeira.

Enquanto eu sangrava sabendo que ia morrer, mesmo sem sentir dor, o homem do meu lado parecia estar prestes a desmaiar na direção. Eu sabia que não poderia contar com ele. Um patife sempre reconhece outro. E eu deixei o monstro dentro de mim me tornar mais feio do que aquelas pobres criaturas trabalhadoras. Você estava certo pai.