O Cronista

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


r017_cronista

De tanto escrever sobre amor, acreditava-se que ele fora um grande amante. Fazia das palavras degraus que alcançavam a alma. Caracteres tocavam o coração de leitores e leitoras empáticos. Eram reflexos da condição de quem amava o amor. Rico nas peculiaridades dos afetos, ao mesmo tempo em que era nada sutil na descrição das experiências narradas. Experiências que nunca viveu.

Da sacada de seu apartamento, na Avenida Atlântica, fitava as musas do balneário, que alimentavam sua inspiração. No dia seguinte o jornal publicava sua crônica. Seus personagens não eram apenas os casais do calçadão, que iam desde os adolescentes da descoberta dos afetos até os idosos na contemplação do primeiro neto. Mas eram também as figuras solitárias.

Raras eram às vezes que ele descia de sua torre e caminhava entre a multidão de futuros personagens. Anônimo, seu nome do jornal era um pseudônimo. Invisível, nenhum olhar era retribuído. Suspirava sozinho, em silêncio, para não ser percebido. Acompanhava o ritmo da rua, as vozes tristes e alegres, a música dos carros e os pensamentos de outros seres invisíveis.

A jovem sozinha no banco da praça, que não tirava os olhos do telefone. O rapaz de bicicleta, perdido em pensamentos mais distantes que o horizonte que ele fingia ver. O senhor, sem aliança, que corria na areia da praia com fones de ouvido. A senhora que catava latinhas no lixeiro. O menino que chorava por não encontrar a mãe.

Seu corpo foi encontrado uma semana depois. Sentado diante de um velho computador ligado, com seu último texto inacabado, onde lamentava a saudade dos velhos amigos. Refletia sobre a velhice e o tempo. Sobre os que avançam e os que param. Queria ser jovem para sempre, então parou. Viu os amigos crescerem, casarem, terem filhos, enquanto ele ficou para trás. A solidão foi o preço de sua juventude eterna. Naquela semana o jornal publicou textos antigos. Ninguém tinha o endereço dele, nem o número do telefone.

O aparelho, ligado no computador, tinha como mensagens mais recentes apenas a publicidade da operadora. Da mesa, voltada para a janela, via-se o mar e um grande navio na linha do horizonte. Uma aliança repousava sobre o teclado, sobre a barra de espaço, com um nome e uma data de trinta anos atrás. Wish You Were Here, numa aba do navegador. E muitas latas de cerveja espalhadas pelo chão.

Talvez ele tenha chorado também.