O Príncipe

Jornalista, cronista e blogueiro


boate

Entrar na boate em uma noite fria, chuvosa, típica do nosso inverno, era algo que eu não queria mais fazer. Mas era o meu dever. Não estava ali para me divertir, já não tinha mais idade para isso, era uma missão divertida para mim, mas não para a maioria daqueles que eu mandei embora. Estava ali motivado pela vingança.

Era o décimo quinto sumiço de pessoa dentro da boate mais cara da cidade. Uma pessoa especial desta vez: o agente Hartel, um dos mais competentes detetives da nossa equipe. Ele investigava a vida de Henrique de Marco, o arrogante e prepotente proprietário da boate O Príncipe. O Hartel tinha me contato que estava fechando o quebra-cabeças e logo teria as provas necessárias para colocar Henrique atrás das grades. São três dias que ele está desaparecido, temos a certeza que sumiu aqui, no Príncipe.

Boate vazia, só os funcionários presentes, chegou a hora de falar com aquele que se intitula o Príncipe da cidade. Um sujeito exótico, extravagante, vestindo um termo vermelho e uma cartola, com correntes de ouro no pescoço estava na minha frente, em seu trono. Em sua volta, três belas mulheres e três sujeitos mal-encarados, gigantes, que provavelmente portavam armas.

– Seja bem-vindo, delegado. Você sabe como é, a casa é sua

– Não me venha com enrolações, Henrique. Você sabe muito bem porque estou aqui. Vamos, cadê o Hartel?

– Hartel? Aquele homenzinho andou frequentando minha boate novamente? Não creio! Deve ter vindo atrás de um rabo de saia…

– Faça-me o favor, Henrique. Se o senhor não quiser colaborar, vou ter que revistar toda a boate…

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Um dos investigadores mais qualificados da metrópole, o agente Hartel sabia que teria problemas pela frente quando recebeu a missão de investigar os desaparecimentos na boate O Príncipe. Além dos sumiços, havia a denuncia de uma ex-funcionária que corpos estavam sendo esfolados nos fundos da casa noturna.

Hartel tinha uma extensa lista de fontes e contatos que poderiam ajudar a resolver a questão. A diarista Joaquina era a principal. Os dois vinham conversando há dois meses e ela topou repassar informações internas da boate. Trabalhando como faxineira na Príncipe, relatou uma movimentação estranha que ocorria todas as noites na dispensa da casa.

Distribuidor de bebidas foi o disfarce. Hartel chegou na noite de quarta-feira pelos fundos da boate com uma entrega de garrafas de vodka. A mercadoria chegaria naquela noite e o detetive tratou acertar com os verdadeiros entregadores antes. Assim, chegou pela porta de trás e entrou na dispensa, onde encontrou uma movimentação intensa de pessoas, buscando e levando bebidas para os bares da casa.

Joaquina estava ali e discretamente apontou para um canto escuro da sala, onde tinha uma geladeira de cervejas. Hartel deixou uma caixa de vodas próximo da geladeira e reparou em um alçapão no chão….

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Henrique estava tranquilo demais. Ignorava nossa presença. Ao invés de se preocupar com uma possível incriminação, se distraía com outras coisas em meio ao interrogatório. Teve a cara de pau de chamar seu gato, Merlim, para brincar durante as perguntas.

– O detetive Hartel esteve aqui há três dias. Veio investigar as denúncias de desaparecimento de frequentadores de sua boate. Desde então, não foi mais visto. Posso pedir uma prisão preventiva sua, se continuares zoando as investigações – ameacei.

– Delegado, a boate é sua. Investigue como quiser. Mas cuide com suas ameaças. Vocês não gostam de mim e eu não gosto de vocês, mas a diferença é que eu deixo vocês em paz. Vou dizer mais uma vez, não mexam comigo – respondeu em tom de ameaça Henrique.

Certo que ele não iria ajudar em nada, decidi iniciar a procura dentro da boate. O Hartel me falou em uma fonte sua era funcionária aqui, mas não sabia o nome. Teria que dar um jeito de descobrir.

Entramos sala por sala, conversamos com cada funcionário que encontrávamos com perguntas sobre a noite de quarta-feira. Ao invés de perguntarmos pelo detetive Hartel, demos apenas a descrição física dele. Deu certo. Uma atendente do bar disse que viu alguém parecido na dispensa, entregando caixas de vodka.

Sem perder tempo, fomos direto para a dispensa, onde encontramos uma geladeira velha claramente fora do lugar. Nos aproximamos e encontramos uma passagem para um porão aberta. Mandei meus agentes na frente….

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O detetive Hartel novamente contou com a ajuda de sua informante para despistar os funcionários da boate. Ela pediu para uma amiga que estava na festa fazer um escândalo, daqueles mais vergonhosos, atraindo a atenção de todos, principalmente dos seguranças. Enquanto uma mulher gritava histericamente que tinha sido roubada dentro da festa, Hartel e Joaquina tratavam de tirar a geladeira do lugar para conseguir abrir o alçapão.

O acesso ao porão era por uma escada de madeira frágil. Ela ficou em cima, dando a retaguarda. Um ambiente fétido, escuro e úmido já dava as credenciais para o que vira de pior. A lanterna era insuficiente para conseguir iluminar uma escuridão intensa e o cheiro de podridão embrulhava o estômago.

Mais uns passos e Hartel foi percebendo onde estava. Com a pouca iluminação, acabou esbarrando num objeto que estava pendurado. Percebeu que se tratava de um pedaço de um corpo. Jogou a lanterna em cima e as peças foram se encaixando. Era o tal “açougue dos infernos”. que haviam denunciado. Pedaços de corpos humanos sem pele espalhados pela sala formavam o cenário de horror.

Ligou a câmera do celular e começou a registrar fotos. Sabia que estava sob risco no local, por isso precisava ser rápido. Algumas imagens seriam mais que suficientes.

Quando batia as fotos, escutou um grito vindo de cima. Era a voz de sua informante. A escada que estava colocada caiu e o alcapão fechou. Sentindo o perigo, tentou correr para aonde estava a escada.

A luz da lanterna parou de funcionar. A escuridão ficou ainda mais profunda e um frio na espinha se intensificou quando ele sentiu que não estava sozinho na sala….

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O porão estava praticamente vazio, com apenas alguns materiais de limpeza guaradados. Ainda sim, tinha a impressão que tiraram alguma coisa dali, pois estava vazio demais. Foi quando um dos meus policiais me avisou:

– Delegado! O Hartel está aqui!

Sai correndo e fui até o segundo andar da boate. Era um belo camarote, dos mais luxuosos. Lá estava Hartel, bem vestido, tomando um drink com uma mulher vestida simples. Devia ser a informante dele. Eles estavam rindo, conversando.

– Delegaaaaaaaaadoooo! Não precisas mais se preocupar. Está tudo bem comigo. Na real, eu sai da polícia e vou atuar com segurança privada. E esquece o Henrique, tá. Sacaneamos com ele, mas é uma boa pessoa. Controversa, é verdade, mas bem intencionada!