A desobediência civil infantil

Jornalista, cronista e blogueiro


Quando eu era criança, eu queria ser músico. Forcei meus pais a pagarem um curso de violão particular. Pior, tiveram que comprar um violão e inverter as cordas, pois eu sou canhoto e a coordenação motora nunca foi muito com a minha cara. Eu não conseguia tocar com o violão “do lado destro” como muitos canhotos fazem. Invertendo as cordas, eu era o único da casa que podia usar. Jogaram dinheiro fora. Apesar de um apaixonado insano pela música, nunca consegui tocar.

Quando eu era criança, eu queria ser ator. De cinema? Não, teatro! Não foi vendo um filme blockbuster que despertou a vontade, nem mesmo um grande espetáculo no Carlos Gomes. Foi vendo o ginásio do Colégio Luiz Delfino fazer o seu festival em 1991, quando tinha 7 anos.

A turma da primeira série tinha acabado de sair do ginásio, da aula de educação física. Passamos pelo pátio da escola e vimos na área coberta um palco montado com as apresentações. Como éramos crianças bobas e retardadas, daquelas que saem correndo atrás de qualquer coisa que pareça interessante, fomos ver um pouco as peças. Quase todas puxadas para o humor.

Além de só ter 7 anos, eu era baixinho na época, isto é, não conseguia ver quase nada no local onde ficamos. E a professora, não muito paciente, logo mandou a gente de volta para a sala. Foi aí que eu realizei o meu primeiro ato de desobediência civil, a primeira vez que eu não cumpri uma ordem de um professor.

A culpa não foi inteiramente minha. Compartilho ela com as alunas da oitava série. Foram elas que viram um guri da primeira série andando no meio dos adolescentes, tentando achar um lugar melhor para ver. Elas que me colocaram na frente do palco, onde pude terminar de ver a peça que estava assistindo…e ver outras, claro. Não conhecia ninguém ali, não faço a mínima ideia de quem eram as pessoas que estavam do meu lado, mas sei que fui protegido para poder apreciar a arte.

Onde estavam os meus amigos da sala? Onde estava a professora? Não fazia a mínima ideia. Na minha cabeça, eu podia ficar ali vendo a peça, era feita pela própria escola. Não tinha noção de que aquilo era errado.

No final das apresentações, eu fui em direção da minha sala quando encontrei o diretor do colégio e a minha professora. Estavam desesperados e perguntaram para onde eu tinha fugido. O medo deles era que eu tivesse fugido da escola. Pense: uma criança de 7 anos solta pelo Centro de Blumenau, perto da movimentada Rua 7 de Setembro (que na época era mão dupla).

Disse para eles que estava vendo o teatro. O diretor me deu um esporro, falando que eu não podia fazer aquilo sem ordem da professora. Ela não brigou comigo. Devia ter ficado aliviada, pois se desse merda, a culpa cairia em cima dela.

Depois disso, nunca mais precisei transgredir a ordem para assistir uma peça de teatro. E nem precisei esperar o ginásio para estar em cima do palco. Minha primeira apresentação teatral foi na terceira série, para todos os alunos da Adelaide Starke. O saco de esperteza, da Maria Clara Machado, foi a peça. Abandonei o teatro em 2007, após sete anos como ator amador. Ainda pretendo voltar ao mundo das artes cênicas, mas desta vez atrás dos teclados…