Rituais

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


Por muito tempo fui praticante de magia. Comecei cedo, ainda adolescente, com leituras de Tarot, depois I Ching e astrologia. Depois iniciei as Práticas de Ram, os estudos da Cabala, da Filosofia Hermética, da Tábua da Esmeralda e das Clavículas de Salomão. Por fim busquei mais conhecimento teórico nas obras de Eliphas Levi, Aleister Crowley e os tratados alquímicos de Paracelso. Aprendi as Leis de Thelema e fiz rituais. Nem todos bem sucedidos. Invoquei anjos e demônios e conversei com espíritos de parentes mortos.

Realizei tudo isso sozinho. Nunca fiz parte de cultos e nunca participei de cerimoniais. Sempre evitei tocar no assunto, por medo da incredulidade dos outros ou de suas reprovações. Mas a verdade é que sempre busquei uma parceira disposta a desvendar o que se esconde por detrás do véu da realidade mundana. Alguém disposta a canalizar o prana, por meio de experiências tântricas, em um desenvolvimento mútuo da auto-consciência. Alguém disposta, como eu, “a não seguir a corrente coletiva das causas secundárias”. Mas não a encontrei.

Foi tempos atrás que resolvi dar um basta nessa carreira solitária de estudos esotéricos e decidi que invocaria, por meio de um complexo ritual, a maior entidade do assunto: o Cupido. Neste momento quem lê isso deve pensar que se trata de uma ficção ou insanidade do autor. Mas eu lhe garanto uma coisa: quando o assunto é Alta Magia, realidade, ficção e insanidade não são separadas por linhas, mas sim por uma névoa, onde é muito fácil todos os caminhos se misturarem e o viajante se perder.

Foi num dia de Vênus, num horário de Vênus, ou seja numa sexta-feira às seis horas da manhã, de posse de instrumentos e ingredientes necessários para o ritual, que não posso citar todos, pois o Quarto Verbo ordena que eu me cale. Mas posso dizer que havia mel, vinho, um lâmina consagrada em minha espada e quatro velas, uma para cada Guardião das Quatro Direções. Me voltei ao sol nascente chamando pelo nome de seu Arcanjo e repeti nas demais direções, oficializando meu pedido para que o véu ali se tornasse mais frágil, para que minha consciência pudesse vagar por mundos de sonhos e ideias, esse lugar onde habitam os mitos e os deuses antigos, esquecidos das crenças dos homens por terem sido substituídos por novos deuses.

Meus ingredientes serviam de bússola dentro de um bosque primaveril e me levaram para próximo a uma grande fonte com estátuas, onde havia também um ornamentado belvedere. A entidade me aguardava ali, em pé e me pareceu muito feliz com a minha chegada. Em nada ele se parecia com algumas de suas representações feitas por artistas, aquela ideia da criança gordinha com um arco e flecha. Talvez a obra de Jacques-Louis David, ao retratar Eros e Psique, tenha chego mais perto de representar aquele ser que eu vi.

Não vou relatar como se deu o acordo, havia uma oferenda, um sacrifício a ser feito. Deuses gostam dessas coisas e os mais antigos mais ainda. Mas ele concordou feliz em me ajudar. Parecia encantado com minha história. Retornei ao meu corpo, fechei o rasgo que havia feito no véu da realidade e desfiz os símbolos desenhados no chão. Estava certo que o vazio em meu coração agora seria preenchido por aquela que havia escolhido. O Cupido havia até feito comentários sobre a cor do cabelo dela, dizendo que era a mesma do cabelo de Psique.

Precisava, então, somente encontrá-la e havia um evento na cidade, que certamente ela marcaria presença. Desses eventos culturais na rua, com muitos artistas, músicos e artesãos. Eu estava lá, como sempre, com minhas pinturas, só esperando o momento em que seríamos flechados. Sim, a flecha é real lá, além do véu, mas aqui seriam os sintomas apenas, coração batendo mais forte e rápido, dilatação das pupilas, brilho nos olhos, essas coisas que todo apaixonado reconhece.

Mas quando a vi, para minha surpresa, a moça estava com o cabelo diferente. Uma cor diferente. Fiquei tão preocupado, pensando em como o Cupido iria reconhecê-la, que acabei me lembrando de todas as histórias onde ele errara os alvos. Ele próprio se feriu com sua flecha, por acidente, quando conheceu Psique. Pensei no erro enorme que havia cometido ao pedir ajuda para quem já tinha fama de ser atrapalhado. E em um dado momento eu senti a flecha atravessar o meu peito, mas não foi como disseram que seria. Foi doloroso e desesperançado, pois eu sabia que a garota em questão não seria atingida na mesma hora.

Voltei para casa preocupado e me sentindo mais vazio do que antes. Precisava rever o Cupido e saber o que aconteceu lá. Só que, tive que esperar um tempo para refazer o ritual, pois os astros precisavam estar na mesma posição. E então, fui até a entidade e a questionei, mas na pressa, na agonia de saber o que ela havia feito, eu esqueci do ingrediente mais importante do ritual: o sacrifício. O Cupido me recebeu sem a cordialidade de antes e me expulsou de seu reino dizendo que não poderia haver um novo desejo alcançado sem que algo fosse sacrificado.

Por orgulho não o procurei mais.