Ritual

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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Sob a luz das velas meus dedos percorriam às páginas envelhecidas das Clavículas de Salomão, não sobre o texto original ou sobre as figuras dos pantáculos, mas sobre as anotações do Doutor Josias, que me deixou, além do livro, diversas fotocópias, com textos de Eliphas Levi, provavelmente do Dogma e Ritual de Alta Magia. Havia também seu caderno pessoal com várias anotações sobre Cabala, astrologia, numerologia e necromancia. E eu torcia para energia voltar. Além das velas, a única fonte de luz eram os relâmpagos, que rasgavam o céu com fúria, e projetavam sombras sinistras na velha casa do doutor.

Foi pela manhã, bem cedo, que recebi a notícia. Um telefonema da universidade, do Departamento de História: O Doutor Josias havia falecido no início da madrugada, e seria velado na Igreja Luterana perto da minha casa. Lá encontrei alguns conhecidos da universidade, todos amigos do professor, mas foi um homem estranho que veio falar comigo assim que cheguei. Ele se apresentou como Doutor Nogueira, advogado, e o velho historiador havia deixado algo para mim. Seu caderno com instruções, bem objetivas, como uma receita de bolo. Eu só precisava seguir os passos, e dar continuidade à sua pesquisa.

A tempestade não dava sinais de ir embora, parecia cair diretamente sobre mim. Eu já desenhava a chave cabalista no chão com o giz de quadro negro. O professor tinha uma pequena sala de aula em casa. O grande tapete no chão deu trabalho para ser enrolado, mas nós precisávamos do espaço para o círculo. O chão trazia marcas de outros símbolos já apagados. E como era de costume em suas aulas, onde o doutor divagava entre uma cultura e outra, suas anotações deixavam de lado o povo hebreu para irem até o romano. Não, eu estava enganado. Era latim, mas era medieval, um latim vulgar.

As chaves da casa também me foram entregues durante o velório. Alguns parentes do professor ficaram desconfortáveis com isso. Mas era a última vontade do moribundo. Durante o enterro, um neto do Doutor se aproximou de mim. Era um rapaz um pouco mais novo do que eu, lembrei de tê-lo visto nas aulas de Teologia Medieval. De certa forma seguia os passos do avô. Soube por ele que foi o último a ver o velho com vida. Se aproximou de mim e disse que iria me ajudar essa noite. Ele já sabia das instruções que eu recebi.

A ajuda de Paulo foi indispensável. Eu não conseguiria sozinho trazer o caixão para dentro da sala. Ele deu uma breve olhada nos textos e mesmo sabendo menos latim do que eu, ficou preocupado. Será que vai funcionar? Ele me perguntou. Eu não sabia como responder. Josias era um maluco para mim, deveria ser um maluco para o próprio neto também. Mas, não sei ao certo o porquê, eu confiava no velho.

Quando Paulo me disse, no enterro, que o caixão estava vazio, eu percebi que o assunto era sério. Não teria como ignorar. Ele iria cobrar minha participação no ritual, já que havia ido tão longe, subornando o pessoal da funerária para fazer a troca. Tudo o que você precisa fazer é desenhar os símbolos como ele mandou e recitar os textos. Sussurrou no meu ouvido.

Doutor Josias parecia descansar, tranquilo, sereno dentro do caixão aberto, posto no centro do círculo, cercados de símbolos que supostamente retratam a escrita dos anjos. A chuva parecia reprovar nossa heresia. Cada vez que eu passava os olhos sobre o manuscrito, um trovão desafiava a minha atenção. Quando seguido de um longo período de silêncio, nos assustávamos com o barulho. O vento no salgueiro parecia cantar um lamento desesperado. E minha mente, minha consciência, me dizia que nada disso estava certo. A pintura amadora com o rosto de Jesus, na parede da sala, que até então tinha os olhos vidrados em mim, agora parecia desviá-los, como quem tem vergonha de testemunhar um crime e não poder fazer nada para evitá-lo.

Ao recitar o texto antigo do ritual, lembrei da última aula do Doutor Josias, antes dele ser internado. Quando questionado sobre a visão antropocêntrica do Renascentismo, ele comentou algo sobre o homem destronar Deus do centro do universo e por meio da descoberta das ciências passar a controlar as forças da natureza ao invés de temê-las. O homem é o senhor de seu destino. Ele disse, com o olhar perdido no espaço, vazio, como se sua alma existisse em outro lugar e seu corpo fosse uma casca vazia animada por forças desconhecidas. Exatamente com eu o via agora, levantando-se do caixão, com um sorriso no rosto, debochando de mim por ter traduzido alguns símbolos errados.