Selfie

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net


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A velocidade da internet fazia o sorriso dela chegar aos poucos. Uma linha de pixels de cada vez.

Os olhos? Estes já estavam desvelados. Nítidos na resolução alta e num colorido que eu jamais saberia como definir. Sendo azuis eu diria verdes e vice versa. Não por teimosia, mas por um leve grau de daltonismo. Porém, pelo som, eu sabia que havia algo de oceânico neles. Era como fitar o mar num dia ensolarado. A água limpa, transparente, refletindo o céu e a luz, revelando em seu fundo corais e seres marinhos.

Um dos cantos da boca surgiu, na curva que a bochecha faz com o nariz, como um “S”, revelando também o ponto de luz rosado na maçã do rosto.

E os olhos ainda estão lá. Estáticos. Simpáticos. Tímidos, como se perguntassem ao fotógrafo “rir do quê?” E ele não respondeu, pois no reflexo vi o braço que se esticou sozinho segurando a câmera diante de si. Que mundo insano é esse – eu penso – que a faz se fotografar sozinha? Sem fotógrafo, a câmera é apenas um espelho, um reflexo invertido, mas que não inverte as cores. É o mar contemplando a si próprio num dia ensolarado. Numa praia deserta.

Os lábios surgem aos poucos, primeiro o superior, naquele tom entre o vermelho e o rosa. Curvado nas pontas, como uma meia lua.

Mas são os olhos ainda, e o mistério de suas cores, que me fazem ouvir a praia. Em minha sinestesia, no que penso ser o azul ouço o vento em meus ouvidos como quem ouve o som do mar nas conchas de um nautilus. E no que acredito ser o verde, ouço as ondas quebrando e mais o chiado que a água faz na areia.

Os lábios então se completam, pressionados um contra o outro, a meia lua perfeita. Naquela cor entre o vermelho e o rosa, soando como o estalar do fogo baixo na brasa. Ou como a última fração de segundo na duração de um beijo, quando os lábios se afastam e os olhos ainda estão fechados.

Enquanto a imagem se completa, lentamente, na sinfonia que meu cérebro traduz da soma do mar, do vento, da areia e do fogo, são os meus olhos agora que se fecham na melodia. Memorizando a enseada para onde o rosto dela me transporta.