Sobre o tempo e a felicidade

Jornalista, cronista e blogueiro





O nascer do sol em Covilhã

Tá acabando, né? Uma pergunta com muitos sentidos, usada para bem, mas que me fez um mal na hora. Ouvi por skype do meu pai, sobre o primeiro ano do meu mestrado.

A ficha caiu naquela hora, uma expressão pra lá de ultrapassada, aliás. Senti o tempo passando, a fila andando e a hora de voltar para a terrinha cada vez mais próxima. O desconforto tomou conta de mim: mas como assim, já está acabando? Foi ontem que eu pisei pela primeira vez nas montanhas de Covilhã e já é hora de dar tchau?

Foi como se esse quase um ano longe de casa tivesse corrido tão rápido a ponto de eu não ter aproveitado nada. Uma sensação estranha de trabalho incompleto, uma lista de coisas que deveria ter feito aparecia na minha frente. Um ano é pouco, eu não conheci Portugal o suficiente, não vivi o país, as histórias, o cotidiano de Covilhã e de outras cidades. É isso?

Depois da sensação ruim de ver o tempo passando, tentei raciocinar mais para colocar as coisas em ordem. E só piorou. Na verdade, não é um tchau, é um já volto, pois o mestrado ainda não acabou (e pode ter o doutorado em seguida). Eu volto para Covilhã e há uma boa possibilidade de ficar mais tempo, aí sim, até enjoar da cidadela.

Mas e depois disso? O que vem depois do mestrado? Falava com um amigo há uns meses para nos despedirmos bem das aulas tradicionais. Doutorado não tem isso…e depois acabou. Sala de aula só se for do outro lado da mesa. Ou seja, um ciclo acabou. E acabou mesmo.

Ter a sensação de um ciclo acabando com 33 anos não é algo legal. E agora? O que fazer? Aquela rotina do mestrado, a rotina da Covilhã, descendo e subindo ladeiras até a UBI, madrugadas na biblioteca, briga com o WiFi da universidade, tudo isso acabou. Nem posso invocar o Temer, porque não dá para manter isso aí, viu?

Tristeza? Não. A palavra é saudade. Uma saudade antecipada, coisa de ansioso, mesmo. Antes mesmo de voltar ao Brasil, eu já sinto saudades daqui. E uma parte minha continua lutando para adiar meu retorno a Temerlândia. Nada está descartado.

A saudade é um sentimento estranho. É triste, mas nos remete a felicidade. E esse é o ponto chave dessa crônica. O filósofo Clóvis de Barro Filho fala que “a felicidade é assim – um instante de vida que você gostaria de durasse um pouco mais, que não acabasse logo, que você gostaria de repetir”.

Se tenho saudades e um certo receio de voltar ao Brasil agora, mesmo sabendo que sou obrigado a voltar em poucos meses, é uma prova definitiva que valeu a pena toda essa loucura de estudar fora. Valeu a pena os meses de agonia e ansiedade para conseguir os recursos e receber o visto. E valerá a pena sofrer novamente para buscar formas de terminar o estudo (sim, não tenho garantias).

Tá acabando? Não. Está só começando…