Vida de bar

Jornalista, cronista e blogueiro


categoria_conto_001Faltavam 10 minutos para as quatro horas da madrugada quando Luiz deixou o bar. Com o jeans rasgado e os Ramones no peito, descarregava sua raiva nas latas no chão. Atravessou a rua, sentou no banco do ponto de ônibus, tirou um revólver da cintura e começou a recarregar o 38.

Letícia saiu em seguida. A jovem foi correndo ao ponto, entre a angústia do que poderia vir e a calma que era necessária para a situação. Tentou acalmá-lo e pediu para ele não utilizar a arma. Ela queria uma boa noite de sono depois de tudo que aconteceu, ele queria a vingança.

Eram tantas garrafas na comanda de Odilon que ele nem conseguia contar mais. Com a cabeça encostada no balcão, ele contava para o barman as suas histórias de mais uma noite sem sucesso. A solidão batia forte, mas a esperança não havia acabado. Tudo por causa de uma morena de olhos verdes que tinha avistado na noite.

Odilon passou boa parte da festa olhando para ela. Linda e encantadora, despertava os sentimentos mais íntimos dele. Reparava no sorriso, na dança, nas vírgulas daquela que poderia ser o amor de sua vida. Faltava coragem para dar um passo a frente, para dizer um oi. Cada vez que ela conversava com o outro, era uma barreira sendo construída na frente do jovem sonhador.

O outro homem discutiu com a moça e deixou o bar. Minutos depois, ela também decidiu sair e fez ressurgir a coragem em Odilon.

Luiz engatilhou o revólver, empurrou a namorada para trás e foi para frente do bar. Escondeu-se atrás de um carro e mirou sua arma para a porta. De longe, a Letícia gritava para ele esquecer o que tinha acontecido na festa. Chorava, ameaçava terminar com ele novamente ou mesmo chamar a polícia.

Enquanto a porta era aberta, Letícia abaixava a cabeça e fechava os olhos. Rezava para que os tiros fossem errados. Mas eles atingiram o peito de outro jovem, que saía correndo, com os olhos brilhando.

Decidido a conversar com a mulher dos seus sonhos, Odilon abriu a porta e deixou o bar, quando foi surpreendido. A morena estava nos braços de outro homem, que não era o mesmo que ela conversava no bar.