Vizinhos

Arista Plástico, Ilustrador e Bacharel em Filosofia | www.errado.net





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“Pedro…” ela chamou suavemente, sabendo que não haveria resposta, então se aproximou dele para ser vista e continuou “…você está bem?” O homem, sentado na poltrona da sala, voltado para a janela de cortinas abertas, ignorava a moça e mantinha o olhar fixo no jardim de sua casa. Parecia doente. Muito pálido, vestindo um pijama sujo, barba por fazer e cabelos revirados que há semanas não viam um banho. Lentamente sua consciência captou a presença de Joana. Seu olhar se voltou para ela carregado de tristeza e dor. Os lábios tremeram, balbuciando algo incompreensível. Um sussurro lamentado seguido de um lento movimento de sua mão direita, apontando para a pequena mesa ao lado da poltrona, onde uma folha de papel dobrada repousava solenemente abaixo do abajur, a única luz em todo o ambiente.

A vizinha, abaixando-se ao lado da luz, tomou a carta e a leu em silêncio. O homem, fitando novamente a noite no lado de fora da casa, suspirou pesadamente, como se aquele fosse o último sopro de vida em seu corpo. Inclinou a cabeça, fechou os olhos já em lágrimas e finalmente conseguiu dizer algo, “ela se foi”. A carta confirmava o desejo da esposa. Ir embora. Assinada há três semanas, mas foi só na semana passada que a vizinha notou o abandono na casa ao lado e o forte cheiro de podridão que vinha do seu interior.

Comovida pela condição deplorável do amigo, Joana levantou-se decidida a ajudá-lo a sair daquele estado deprimente. Voltou para a porta da sala, dizendo “Olha Pedro, essas coisas são assim, doem mesmo, mas vai passar. Você precisa deixar o tempo fazer o seu trabalho…” Ela pensava em ir até a cozinha, talvez ajudá-lo a limpar algum resto de comida esquecido e preparar algo para ele comer, mas antes acendeu da luz da sala, para permitir que o ambiente ficasse mais iluminado. O homem precisava de luz. Se virou novamente, para perguntar se ele estava com fome, apenas para ver a poltrona vazia. Assim como todo o recinto. Joana estava sozinha.

“Pedro?” ela chamou com o medo estampado em sua voz. No corredor, que separava a sala da cozinha, uma presença no lado oposto chamou a atenção de Joana. O vulto atravessou a passagem que dava acesso à sala de jantar. “Pedro?” Joana chamou novamente, já duvidando da possibilidade do vizinho ter saído da sala sem passar por ela. Caminhou lentamente, virando-se às vezes para ver a porta por onde entrou, ainda aberta, como uma possível rota de fuga.

Ao chegar na frente da sala de jantar, procurou pelo interruptor de luz e a acendeu. A sala também vazia fedia a comida podre, intocada sobre a mesa, exceto por moscas e vermes na carne podre. Janta posta para dois. Duas taças de vinho pela metade e velas derretidas até o final, com a cera seca esparramada do castiçal até a mesa. Na outra ponta da mesa, um buquê de rosas murchas e escurecidas pelo tempo.

Um ruído trouxe a atenção de Joana novamente para o presente. Pensou em chamar mais uma vez pelo vizinho, mas decidiu caminhar até o quarto, seguindo o corredor até a última porta. Encostada, a empurrou devagar, em silêncio. Pedro estava sentado na cama, de costas para a porta. Soluçava como quem tentava reprimir o choro. Joana deu um passo para dentro do quarto, arriscando novamente chamá-lo pelo nome, “Pedro?”. Apesar da escuridão, a luz que vinha da rua pela janela desenhava os contornos dos móveis e do vulto do amigo, e a moça viu no carpete as marcas de pegadas, marcas de terra.

Ao lado da cama, deitados no chão, dois pés sujos de barro do jardim, vestindo o mesmo pijama que Pedro vestia. Uma pá, também suja de terra, estava encostada no criado mudo naquele lado de lá da cama. O cheiro que ela sentia na rua, vinha do quarto. As moscas estavam em todos os cantos. Era possível ouvi-las zunindo assustadas com a presença da moça.

Pedro, sentado ao lado do corpo, virou o rosto para a vizinha, enquanto ela ainda se aproximava. Estendeu a mão aberta para Joana, exibindo a arma e sussurrando “eu não a deixei ir”. A face do homem agora revelava o estrago que o tiro lhe causara. Joana prendeu a respiração e antes que seu coração disparasse, ele parou por um segundo. O grito não saiu. Ficou preso na garganta. O ar começava a fazer falta.

“Vou desmaiar” ela pensou enquanto automaticamente seu corpo a fazia se virar e correr em direção à porta por onde entrou. Joana sentiu o corredor ficar escuro e frio. O chão se aproximou girando. Seu joelhos começaram a doer. Mas foram suas mãos que se agarraram na porta da frente com o que lhe restava de força. Levantou-se desajeitada, tentado chamar por ajuda. Mas o grito ainda não saia. Passou pelo jardim, repleto de árvores e cercas vivas, só agora reparou na terra remexida no canto menos iluminado onde a esposa de Pedro estendia o braço em desespero, acenando para que Joana lhe esperasse.

“Ele não me deixa ir” o fantasma gritou com dor. “Ele não deixa ninguém ir…”

No dia seguinte a polícia encontrou os três corpos.